quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O que nos aguarda no BBB 11


Já é público para todos os leitores deste blog que sou fã de reality-shows, em especial do carro-chefe dessas atrações desde que estreou, seja pela estrutura da emissora que o transmite, seja pela repercussão mundial que o mesmo tem. Sou fã do Big Brother Brasil que, na próxima terça-feira, entra em sua 11ª edição. O que esperar dessa nova temporada? Quais características marcarão a edição e quais as novidades trazidas pelo elenco escalado por Boninho e cia?

Pela primeira vez, tivemos uma edição do reality com pouquíssima especulação. Nada de pré-listas, pelo menos uma semana antes da estreia prevista do programa. Parecia que o interesse do público em relação a essa edição tinha caído após a vitória de Marcelo Dourado, que desagradou a muitos. Seria o fim do grande sucesso televisivo? Estaríamos diante do sinal de qu e o BBB já deu o que tinha que dar? Aparentemente, não.

Após a segunda-feira, dia 03 de janeiro, quando se imaginou que os nomes dos protagonistas dessa edição seriam divulgados, e Boninho começou a levar-nos em banho-maria, a apatia aparente mudou. A Internet virou palco das mais esdrúxulas listas de possíveis participantes, muitas delas contando com até 20 nomes. Dentre os mais cotados, celebridades do Twitter figuravam, dadas como "certas", até que seus perfis na rede de microblogs era atualizado e a expectativa em torno do nome ia por água a baixo.

O diretor do programa, então, afirmou no dia seguinte que faltavam ser escolhidos 6 participantes, e o martelo só seria batido na quinta-feira (ou seja, hoje), minutos antes dos nomes entrarem na mídia. Mas, como sempre, era uma despista. Ontem à tarde, a lista saiu no site oficial da emissora.

Apenas meia hora depois, sites, portais, blogs e redes sociais já pululavam de informações rastreadas sobre os 17 participantes selecionados. O site da Globo ajudava a aumentar o "ti-ti-ti", com manchetes como "produtora fez topless de Darth Vader", "administrador posou nu para revista gay" e "Jaqueline foi dançarina do cantor Latino". E dá-lha críticas sobre o novo elenco. Para Maurício Stycer, da UOL, a Globo colocava, com o BBB 11, "os dois pés na baixaria", com um elenco demasiadamente apelativo no sentido de buscar corpões sarados e exibicionismo.

Realmente, a produtora Diana, carioca de 29 anos, posou da forma que veio ao mundo, com uma máscara do vilão de Star Wars. O carioca Rodrigo, amigo das ex-sisters Elenita e Anamara, já fez o mesmo na G Magazine, periódico dedicado ao público homossexual. E Jaqueline, além de dançar pra Latino, também foi rainha do Carnaval, dançou no Caldeirão do Huck e participou do Bonde Faz Gostoso. Isso fora o baiano Lucival, com perfil bem visitado no Facebook, e Talula Pascoli, tida como a pré-favorita da edição.

Mas o maior alvo de comentários foi a cabeleireira Ariadna Thalia Arantes. A figura, cujo perfil foi rastreado por toda a rede, é, segundo fotos extremamente comprometedoras em um site adulto espanhol, um travesti. E, segundo corre na boca-pequena, fez uma cirurgia eliminando, digamos, os vestígios de sua masculinidade.

No mais, outra novidade foi a estudante Paula, de Roraima, uma gordinha. Boninho, desde o ano passado, desejava escalar uma para o programa. Dessa vez, teremos uma participante acima do peso, e com um belo rosto. Sua personalidade, ao que consta em seu perfil no Orkut, é mais autoconfiante do que deveria...

Diferente de muitos, que votaram e fizeram vencer o "sequelado" Kleber Bambam, o "caubói" Rodrigo, o "macunaíma" Dhomini, fora os "superpobrinhos", que eliminaram meio mundo, e chegaram a vencer o programa, unicamente por sua posição social desfavorecida, sempre fui a favor do "BBB Show", onde vale tudo para chamar a atenção. A turma do BBB 11 não parece ser plural como a do ano passado (que não ganhou esse título apenas pelos participantes gays, mas por conter, também, as celebridades virtuais, a intelectual e os ex-participantes), mas tem tudo para ser a mais polêmica. Em considerando a expressão "eu quero a vaia", do mestre Nelson Rodrigues, pro qual inquietar o público é a marca da arte, a nova edição parece que cumprirá com seu papel. Vejamos o que acontecerá. E, a julgar pelo Ibope em alta nesse início de ano, o BBB tem chances de começar com o pé direito, também nos números.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Perspectivas televisivas de 2011

Buenas gauchada! Ops, desencarnando o Max Martinez aqui (instantes, por favor...). Pronto. Salve, leitores do Cult! Feliz 2011! Depois de um longo e tenebroso inverno sem postagens, aqui retorno para falar-lhes sobre as perspectivas em nossa televisão neste ano novo. Muita coisa vem por aí. Boas ou ruins, só o tempo dirá. Muito mudou no mundo televisivo desde os idos dos anos 70, quando 80 pontos era a média diária de uma novela das 8. Hoje, 40 pontos é ibopão, e, pela primeira vez, a atração máxima da emissora é anunciada como "a nova novela das 9". Sinais dos tempos, caros amigos.

Pois bem. Afinal, o que vem por aí? Cá estamos para falar-lhes. Começando pela Rede Globo, teremos um mês de janeiro bem movimentado. Dia 10, acontecerá o retorno de O Clone, sucesso inconteste de 2001, tentando recuperar o antigo fôlego do Vale a Pena Ver de Novo. A fim de aplainar a preocupação dos fãs com os cortes sangrentos na parte mais forte da trama - a questão das drogas - Glória Perez e a Rede Globo se adiantaram a dizer que a novela passará praticamente na íntegra, com corte apenas do que REALMENTE for muito forte pro horário. Veremos. O que não dá é um equívoco feito Sete Pecados, que necessitou ser cortada numa média de 50% de sua exibição original.


No dia seguinte, os fãs de reality shows encararão a 11ª edição do Big Brother Brasil. Depois do sucesso da edição comemorativa de número 10, e seu controverso vencedor Marcelo Dourado, vemos, talvez, a edição na qual enxergo a menor especulação de todas. Se isso terá algum efeito prático, ninguém sabe. A única informação até então são as reformas na casa, que agora será biplex, e terá um de seus pisos superiores feito em vidro, e a notícia de que a pré-seleção em muito agradou os diretores, o que significaria um bom elenco. Será? Esperança, pessoal!

Dia 17, entra "a nova novela das 9", Insensato Coração. A trama, aparentemente simples e despretenciosa de Gilberto Braga e Ricardo Linhares tem uma das chamadas com o menor oba-oba que já vi no horário. Considerando que as expectativas foram grandes pra Viver a Vida e Passione, e deu no que deu, me animo com a falta de pretensão. Além do mais, tenho o maior respeito com a equipe que ali está, conseguindo pôr uma novela no ar com todos os problemas enfrentados.

Ainda este mês, minisséries oriundas de filmes nacionais imperarão, numa média de 3 a 5 capítulos. São a versão seriada de O Bem-Amado, Chico Xavier e Amor em 4 Atos. Vale a pena conferir, mesmo para aqueles que viram no cinema. Das séries, a mais cotada pro ano é Batendo o Ponto, mas eu fico na torcida pra ver também na programação fixa a ótima Diversão & Cia.


Ao longo do ano, as atrações vêm com novidades nos demais horários. Depois de uma experiência de época com os anos 50 e uma dinâmica novela contemporânea (dois sucessos), Thelma Guedes e Duca Rachid chegam com uma passagem pelo sertão nordestino. Cordel Encantado é a próxima das seis. Às sete, eu e muitos outros ficaremos órfãos de Ti Ti Ti. Em seu lugar entra Morde e Assopra (ou seja lá qual for o título), de Walcyr Carrasco. Expectativas? Com uma mistureba de Japão, robôs e dinossauros, prefiro ver pra dizer qualquer coisa.

Do horário nobre em diante, dá pra dizer que o ano é de Aguinaldo Silva. Logo em abril, teremos Lara com Z, spin-off da otimamente sucedida Cinquentinha, e estrelado por Suzana Vieira (sim, ela canta, mas também atua). E, após Insensato Coração, a seguinte das nove será, também, do autor: Fina Estampa. Pois é... minha expectativa era pra assistir algo como "As Aventuras de Aguinaldo Silva no Mundo Digital", mas, pelo visto, terei que esperar um pouco para ter meu sonho realizado...


Se no ano passado demos vivas à estreia do Viva, esse ano o canal pago trás ótimas novidades pro público saudosista. Ontem mesmo tivemos o retorno da TV Pirata,come seu humor ácido e inteligente. Por aí vem também O Rei do Gado, em substituição a Por Amor, e Vamp entra no lugar de Quatro por Quatro. Lugar de novela boa é no ar. Parece que, finalmente, a Globo aprendeu isso.

Saindo do âmbito global rumo ao SBT, teremos a estreia de Amor e Revolução, de Tiago Santiago, contando com a colaboração de Renata Dias Gomes, e Corações Feridos, de Íris Abravanel. Da minha parte, faço votos pra tio Sílvio não acorde "com a cabeça prum lado", disposto a mudar de planos. O núcleo de dramaturgia do canal agradece.

Na Record, a "Malhação mexicana" Rebelde (y soy rebelde... quando no sigo los demás...) ganhará versão tupiniquim, em mais uma parceria do canal do bispo com a mexicana Televisa. Já tive mais preconceitos com esse tipo de aliança, mas, apesar da minha antipatia com Edir Macedo e cia, a produção bacaninha de Bela, a Feia mostrou que a Record faz isso com mais competência que o SBT. Pra começar, não só traduzem o texto. O elenco de Rebelde, em boa parte oriundo das últimas temporadas de Malhação, guarda algumas surpresas positivas. Ou não.


No mais, teremos a chegada de Hebe Camargo à Rede TV!, depois de mais de 20 anos no SBT. Bom pra emissora, que tem uma "prata da TV" em seu casting, e pra ela, num lugar em que chega com honras de rainha.


De resto, é aguardar para saber qual influência tais novidades terão nos rumos de nossa televisão. Seja com novidades, retrôs, remakes ou qualquer outra forma de atração, ficamos na torcida para uma programação melhor, e uma liberdade de imprensa mais plena. Nisso, a esperança se defronta com um medo tremendo, but... é esperar as cenas dos próximos capítulos. Abração!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Das (in)contigências acadêmicas

Se embrenhar pelas matas obscuras do mundo acadêmico não é tarefa fácil. Pois é. Eu tenho tentado. São estranhos (des)caminhos, passagens incertas, pontes meio bambas, e, certas vezes, uma estrada meio invisível. Mas o lugar onde se quer chegar, esse sim, é possível observar de qualquer ponto do caminho. Isso, porém, não faz o percurso parecer mais fácil.

Sob esta enxurrada de metáforas e eufemismos, o certo é que tenho trilhado o caminho dos tijolos dourados, rumo a um objetivo. A princípio, "caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento", "ao sabor do vento", e sem muita responsabilidade sobre a chegada. Mas a trilha foi se tornando mais clara, e as possibilidades de chegar ao destino desejado também. E fui me apaixonando por essa caminhada. Ao longo dela, fiz amizade com aqueles que, como eu, trilhavam o mesmo caminho. Muitos (e talvez eu mesmo) olhavam para os outros, a princípio, pensando em derrubá-los na próxima ponte cabaleante. Mas, quer saber? Melhor é caminhar junto, e compartilhar, ao longo do caminho, das paisagens e da expectativa. Que delícia é ter companhia pra passar nervoso, pra roer a unha, pra esperar por aquele que não marcou de vir (naquele momento)! Por vezes, quase caí na areia movediça. Mas me estenderam a mão: justo aqueles que poderia me deixar ali, sendo consumido pela terra traiçoeira. O que seria melhor pra eles, claro. Mas, talvez, aqueles que junto comigo faziam a travessia, estavam pensando como eu.

Ao longo da jornada, muitos foram eliminados. É como um grande Big Brother, com 85 participantes. É, um jogo duro, duríssimo! A diferença é que 23 ganharão o grande prêmio. A gente olha pra trás, vê quanta gente ficou pelo caminho, e já se sente vitorioso. Eu cheguei aqui! Justo eu, aquele que pensava que tudo não passaria de uma grande brincadeira (de ET)!

Mas chega um ponto em que todo o caminho foi percorrido, e a fortaleza de gelo (ou de cristal, ou de ferro, ou, quem sabe, de guloseimas, como a casa de bruxa em João e Maria...) está de portas fechadas, prontas para abrir apenas para os escolhidos. Ah, os escolhidos... aqueles que penetrarão num caminho ainda mais difícil e tortuoso. Aquele que navegará por mares nunca dantes navegados. Mas delicioso de tão enigmático.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Que saudade dos 80!

Coisa ruim é chegar na festa justo no fim... Pois é. Aconteceu comigo. A festa era ploc: tudo era colorido, os cabelos eram deliberadamente crespos. As mulheres usavam bustiês. As crianças dançavam músicas de Xuxa e Angélica, e nem elas nem seus pais estavam se importando com seu alto teor erótico. Na TV, em plena sessão da tarde, os peitos femininos pululavam no filminho. Noutra TV, um grupo de moleques jogava videogame num Atari. Bem ali, num cantinho escuro, os pré-adolescentes olhavam escondidos a playboy que mostrava Ísis de Oliveira, literalmente, de cabo a rabo. Na pista de dança, um grupo de adolescentes se requebrava ao som de Legião Urbana, Blitz, Kid Abelha, Barão Vermelho, Metrô... Mais tarde, as mamães se reuniam no sofá da sala para assistir (e comentar) a história de Jocasta, apaixonada por Édipo, que era seu filho.


Nasci em 1989, justo no fim da festa que foram os anos 80. Tudo podia numa época que suscedia os duríssimos "anos de chumbo". O fim da ditadura trouxe ao Brasil o símbolo da liberdade (e, por que não, da libertinagem), expressa nos programas de TV, cada dia mais saidinhos, no colorido das roupas, nas atitudes, nos falares. Os pais de crianças nos anos 80 eram filhos de homens e mulheres conservadores, católicos fervorosos. Muitos, membros da TFP (sabe o significado da sigla? Não? Dá um Google, rapaz!). Depois de uma infância e uma adolescência regrada, restrita, resolveram "liberar geral". Seus filhos podiam tudo! E brincavam soltos, assistam, dançavam, cantavam, vestiam o que queriam.

As menininhas queriam ser a Xuxa - usar seus cabelos amarrados dos dois lados, usar seus microshorts e cantar o Ilariê. Os meninos também queriam Xuxa, mas em outro sentido... e nesse mesmo sentido, queriam também Sandra Bréa, Cláudia Raia, Luciana Vendramini, Luiza Brunet, Cláudia Ohana... ai! Os mais novos, não tavam nem aí: queriam mais era assistir o Balão Mágico toda manhã. E o Bozo? Mania nacional!


Aos domingos, todo mundo ia tomar suas doses diárias de cultura trash assistindo o Chacrinha, e acompanhando ele tocar uma corneta insuportável no ouvido dos calouros ruins, entregando-lhes um abacaxi. Todos adorávamos ver Elke Maravilha, as chacretes, e as novas bandas, que tiveram sua primeiríssima oportunidade no palco do Velho Guerreiro. Mais tarde, "é Fantástico!". Breguinha toda vida, as mulheres saindo de dentro d'água ao som da música de abertura que embalava os atores da Globo cantando sucessos nacionais, as novidades da ciência e o fim da corrida especial, em plena Guerra Fria.


Esqueci de alguém? Claro! Ninguém também perdia os Trapalhões. E todos assistíamos às impagáveis peripêcias de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. Só mais tarde percebemos que as verdadeiras estrelas, ao desaparecerem, deixavam outras sem luz própria...


Durante a semana, quando a noite chegava, mais uma vez, todos estavam diante da TV. E dá-lhe a melhor safra de novelas de todos os tempos: às 19h, acompavam-se os sucessos de Sílvio de Abreu e Cassiano Gabus Mendes. Quem não lembra da cena em que Charlô e Otávio se emporcalhavam na mesa de café-da-manhã em Guerra dos Sexos? Ou as alfinetadas de Jacque L'eclair e Victor Valentin na 1ª versão de Ti Ti Ti? Quem não tentou sacudir o relógio igualzinho o Sinhozinho Malta, dizendo "tô certo, ou tô errado?". E quantos de nós nos dividimos entre a honestidade de Raquel Acciolli e as adoráveis sacanagens de Maria de Fátima, em Vale Tudo?


Ah, os anos 80... quem era criança mal podia esperar as férias. Pé na tábua! Todos viajam para a casa da vovó, no interior, onde podiam correr com os pés descalços, banhar no rio, fazer brinquedo de papel, brincar de pega-pega ou de pique-esconde. E quando dava briga? Chororô geral, mas tudo se resolvi ali. Ninguém corria pra contar pro pai. E quando dava beijo? Era pêra, uva, maçã... mas tinha também quem escolhesse a salada-mista. Sorte dos garotos saidinhos quando aparecia uma menina espevitada...

E os desenhos? Quem nunca assistiu ao He-Man e à She-Ra? Aos Thundercats? Ao Capitão Caverna? Ao Manda-Chuva? À Família Buscapé?

E os jogos? Quem nunca bateu cabeça com o Genius? Quem não lembra do Odissey, concorrente do Atari?

E as lendas urbanas? Todo mundo tinha medo de ir no banheiro do colégio, temendo ser atacado pela loira do banheiro. Comer o pirulito do Zorro? Nunca! Quando os pais davam às costas, todo mundo ia rodar ao contrário o disco da Xuxa ou do Menudo, pra saber se tinha mesmo ali uma mensagem satânica. E quem tinha o boneco do Fofão mantinha-o bem longe da cama, à noite...

É. Acreditavam no Brasil. E todo jovem que era jovem era também engajado. Todo mundo cantou junto com Cazuza no Rock in Rio, quando esse enunciava "que o dia nasça feliz pra todo mundo amanhã". No amanhã que Cazuza previa, o Colégio Eleitoral elegeria Tancredo Neves, e a esperança da redemocratização tornava-se mais sólida. Todos queriam ser os descamisados do Collor, ou cantar o "Lula Lá". Dois anos depois, os mesmos que entoaram os jingles eleitorais entoavam o Hino Nacional, vestidos de preto e pintados de verde e amarelo, gritando "Fora Collor!".

Quem viveu os 80 jamais esquecerá os melhores anos de sua vida. Quem não viveu tem saudade. Saudade e inveja. Inveja daqueles que eram felizes e não sabiam. E têm de amargar uma época irritante de tão politicamente correta...

domingo, 7 de novembro de 2010

"Clandestinos" - O teatro como a TV nunca viu



"O palco é seu". Em noventa segundos, você tem a chance de mostrar o seu talento. Esse foi o princípio utilizado por João Falcão, em maio de 2008, para selecionar atores que estrelariam uma peça, então, em branco. Um trabalho que seria construído com e pelas histórias de cada um dos envolvidos no processo. Uma peça sobre os sonhos de centenas de amadores na selva de pedra que se tornou o mundo artístico. Loucura? Talvez sim. E muita gente pensou que fosse. Mas, na última quinta-feira, a "loucura" de João Falcão ganhou espaço na programação da Rede Globo em forma de série. Clandestinos - O sonho começou é a nova e inovadora série da emissora, que visa mostrar, com atores que interpretam a si mesmos, a história de centenas de sonhos em xeque, num palco, em noventa segundos.

Na metalinguagem proposta, Fábio (Fábio Enriquez) é o alter-ego do autor da série (escrita em parceria com Guel Arraes) que, com o sonho de escrever uma peça inovadora, conta com a ajuda da racional amiga e ex-namorada Elisa (Elisa Pinheiro). Selecionando atores, ele se depara com a vida e os sonhos de centenas de jovens, dos quatro cantos do Brasil.

Uma delas é Adelaide (Adelaide de Castro), mineira de Três Corações, a mais velha de sete irmãos, em uma família simples, que larga a cidade em busca do estrelato no Rio de Janeiro. Imaginando encontrar um artista em cada esquina, Adelaide depara-se com a impessoalidade da cidade grande. Acompanhada apenas de seu sonho e de seu saxofone, cai de cabeça no mundo-cão, que pode, porventura, transformar-se no céu cor-de-rosa que idealizou.

Logo no primeiro episódio, revemos também Giselle e Michelle Batista, as "gêmeas de Malhação", e a dureza de duas atrizes gêmeas em um mundo em que "basta um". Nos seguintes, novos protagonistas surgirão: a nordestina Chandelly, que esconde a origem e o sotaque, temendo ver sua oportunidade ir pelo ralo; Emiliano, o Pedro Bala, por sua vez abusando da "baianicidade" pra virar artista; a já atriz da Globo, Nanda Costa, dentre outros.

A ideia original, inovadora, tem muito daquilo que a televisão necessita nos dias atuais. O diálogo entre gêneros e mídias, que poderia ser a grande perdição do trabalho, mostrou, pelo menos no primeiro episódio, ser a grande vedete deste: a sensibilidade do teatro mostrada na massiva televisão, sem perder sua essência, mas tirando desse segundo meio aquilo que ele tem de melhor.

A sonoplastia foi perfeita. A trilha sonora de cada personagem parecia descrevê-lo. Belchior na primeira cena, Gilberto Gil e seu "Lamento Sertanejo" embalando os passos de Adelaide rumo à cidade grande, e a bela nova voz feminina entoando "Se eu quiser falar com Deus", ao som do sax da grande mocinha nessa estreia, emocionaram, fazendo-nos torcer, levando-nos a ser parte deste grande sonho que começava.

Clandestinos me trouxe à identificação imediata desde suas chamadas. A estreia me levou a, se é que era possível, uma identificação ainda maior. Cada um de nós poderia estar retratado nos personagens da série: com nossos sonhos, pelos quais lutamos, pelos quais temos as maiores expectativas. Quantas vezes não ficamos nervosos, esperando a ligação que nos trará a boa ou má notícia? Preferimos esquecer que ligariam... Também é horrível viver à sombra dos outros. Por outro lado, ainda há pessoas com desprendimento para abrir mão dos próprios sonhos em prol dos nossos. Devemos ou não aproveitar essa oportunidade? Quantas vezes nos pegamos desesperados, tocando nossos saxes imaginários, procurando falar com Deus, nosso único esteio em momentos difíceis? Não vale tudo para se alcançar nossos objetivos, mas vale sonhar alto. Um dia, o sonho pode se tornar realidade.