quinta-feira, 19 de maio de 2011

Eu, o homem mais responsável do mundo

Muitos escrevem em diários escondidos em baixo do travesseiro, falam com analistas ou se trancam no banheiro para tacar a cabeça na parede. Eu, não. Eu prefiro vir falar aqui, nesse meu diário virtual, lido por todo mundo. Diário não é bem um nome, né? Faz quando tempo que eu não escrevo por aqui?! Perdão, leitores, mas a vida anda dura para quem é mole. E, em breve, vou falar de coisas sérias, inspiradas (tem coisa boa vindo aí!), mas agora, nesse momento, o que eu quero é desabafar? Posso? Não? Muda de blog, pô! Aqui eu escrevo o que eu quero! Ops... calma, Fábio... amigo... Bom, colocar minhas angústias e reflexões aqui pode parecer a vocês estar expondo minha vida na Internet. Não, caras pálidas. Essas são angústias e reflexões de tanta gente, que minha fala se dilui entre muitas outras pessoas. Ou não.

Hoje, e isso não é de hoje, tenho me sentido carregando em minhas costas grande parte da responsabilidade do mundo. Antes de mais nada, estou feliz. Isso é inegável. Feliz mesmo, por ter alcançado um objetivo. Mas me sentindo responsável por tantos e tantas coisas... Responsabilidade em todos os sentidos. O mundo que se apresenta é grande demais, e minhas expectativas são maiores ainda. Mas como alcançar? Fugindo da realidade, sendo um inconsciente, e bancando minha felicidade de maneira egoísta? Ou então encarando de frente os fatos, passando por todas as dificuldades, e olhando para trás, daqui a um tempo, e percebendo que valeu a pena? Oh, dúvida cruel...

Às vezes, e esse "às vezes" é bem mais constante do que o ideal, sinto medo. Uma certa carência de companhias, e até mesmo de aceitação para com esse meu "eu" introspectivo. De repente, me encontro cercado de pessoas. Mais do que isso: gosto delas, me identifico. E sei que as conheci no momento correto. Mas isso só faz com que meu medo aumente. O medo de não corresponder como gostaria. Tenho limitações, grandes limitações. Mais do que isso, temo por não conseguir não me sentir pior por carregá-las comigo.

As limitações, como sempre, são maiores do que nós. Dependemos delas. São de todos os cunhos, todos os tamanhos. Muitas são objetivas, e influenciam decisivamente nas nossas subjetividades, e nas dos que nos rodeiam, e de quem dependemos diretamente.

O maior de todos os medos é de não ser entendido. De ser execrado, justamente, por ser limitado. De me sentir um "outro", onde venho lutando, e com tanta força, já há algum tempo, pra ser um "eu". O máximo que consigo é ser um "eu" idêntico a mim mesmo. Talvez isso seja bom, acho que sim, mas confesso que me angustia.

Entendeu? Não? Bom, eu não vou desenhar. Até a próxima.

sábado, 7 de maio de 2011

Alinhandos os corações (ou Como "Insensato Coração" pode estar entrando nos eixos)





No futuro, daqui a uns sete, oito meses, provavelmente diremos que Insensato Coração foi uma boa novela. Redonda, correta, que vingou com uma audiência que, abaixo dos considerados satisfatórios 40 pontos de média, superou sua antecessora, Passione. Diremos, talvez, que vem de uma leva de novelas tecnicamente excelentes e que, apesar de ainda não ter recuperado o afã brasileiro no horário nobre, contribuiu na abertura de caminhos para que suas sucessoras o façam.



Não sei se essa minha profecia vai se confirmar, mas o que tenho visto, há cerca de 1 mês, na atual novela das 9 da Rede Globo é uma história que tem começado a mostrar que foi bem planejada, e que tem seguido uma receita que desencadeará, muito provavelmente, no gosto popular. Insensato Coração é mais um trabalho nos currículos de Gilberto Braga e Ricardo Linhares que, seja em trabalhos juntos, sejam em separado, sejam em coautorias diferentes, não precisam mais provar nada a ninguém. O que não justifica escrever novela sem emoção, mas justifica dar-lhes uma chance de contar uma boa história - mesmo que tenhamos que esperar cerca de 100 capítulos para ver as coisas chegarem ao ponto G.



Recentemente, defendi, aqui mesmo nesse blog, que uma boa novela é aquela escrita com emoção, com gosto, com felicidade, com garra. Até algum tempo, não estava percebendo isso na novela das 9. Gilberto jamais escondeu que escreve porque ganha bem, porque tem um contrato... enfim, porque é o trabalho dele e ponto final. Linhares, por sua vez, sempre demonstrou uma boa dose de empolgação no seu fazer dramatúrgico. Dennis Carvalho, o diretor, também. E se Paola Oliveira e Eriberto Leão não têm ganhado o público como mocinhos, não penso que se deva às sua interpretação. Por outro lado, temos visto atores que dão com maestria vida aos seus personagens, como Deborah Evelyn, Ana Beatriz Nogueira, Deborah Secco, Camila Pitanga, Lázaro Ramos, Ana Lúcia Torre, Rosi Campos, Ricardo Pereira e Nathalia Thimberg.



Insensato começou com elementos que poderiam fazer dela tanto um sucesso desde seu início quanto um completo marasmo. Talvez o que o que pouca gente percebeu é que Gilberto Braga retomava sua discussão sobre a ética e a honestidade no Brasil, já travada em trabalhos como Vale Tudo, O Dono do Mundo e Pátria Minha, e também ventilada na minissérie Labirinto. Ricardo Linhares, por sua vez, fazia reviver seus personagens cômicos e caricatos. É impossível ver Tia Neném, Nathalie e Bibi sem se lembrar, fatalmente, da puritana Cleonice (outra vez, Ana Lúcia) e da fogosa Scarlett (Luiza Thomé), de A Indomada, além da Bebel (Camila Pitanga) de Paraíso Tropical.



O começo bem lembrou momentos bons da carpintaria manequiana: a desestruturação da família de Raul Brandão, a partir da traição de sua mulher e da falta de ética de seu filho mais velho. Além da hipocrisia dos outros familiares, tivemos a tresloucada Eunice bradando contra Pedro, culpando-o da morte de Luciana. E quem não se lembrou de outra Luciana, aquela vivida por Alinne Moraes em Viver a Vida, ao vermos Pedro na cadeira de rodas. Assim como nesta novela, a luta pela reabilitação do mocinho não fez aumentar o interesse do público pela trama. Marina Drummond, uma mocinha tão racional, tão compreensiva e tão apaixonada, virava mocinha chata, até por não ter ninguém que a disputasse em pé de igualdade com Pedro (Porque, né? Henrique é chato pra burro!). E assim caminhou uma história que se apresentavam modorrenta, chata, daquelas que a gente assiste quando dá, e nem sente culpa se for dormir, ler, ver super-8 em seu horário.



Mas as coisas mudam. E, ao que parece, não estão mudando ao sabor do IBOPE, e sim seguindo uma sinopse bem estruturada. Percebe-se que, para se chegar aos pontos de inflexão que agora se apresentam na história, foi necessário plantar a trama. E, plantada, ela agora pode agarrar o público pelo pescoço, tascar-lhe um beijo na boca, e conquistá-lo por inteiro. Elenquei abaixo os elementos que, na minha opinião, podem transformar Insensato Coração num grande sucesso, a partir de agora:




1. A vingança de Norma






De longe, a mais bem construída personagem da trama, Norma, a enfermeira desventurada, vivida por Glória Pires, é o grande show da novela. Enganada por Léo (Gabriel Braga Nunes), presa sem ter cometido crime algum, roubada por aquela que imaginou ser sua melhor amiga e maltratada na cadeia por Araci (Cristiana Oliveira), Norma aprendeu na marra que, para viver na selva, é preciso não só fugir do predador, mas atacá-lo. Depois de matar Araci na cadeia, Norma deve passar por cima de todos que, porventura, se coloquem no caminho de sua vingança contra Léo. Primeiro, Kátia (Lidi Lisboa), cujo rosto vai marcar com uma faca, por tentá-la impedir de roubar o tesouro da ex-detenta. Depois, deve fazer com que Nathalie (Deborah Secco) seja atropelada, para cuidar dela, se tornar sua amiga, e se infiltrar no prédio. Deve fazer com que um dos garçons do bar de Gabino (Guilherme Piva) seja expulso do quartinho alugado por Fabíola (Roberta Rodrigues), sendo ela a escolhida para ali habitar. E, depois de se produzir com o dinheiro de Araci, aproximar-se de Teodoro (Tarcísio Meira), fazer com que seu acompanhante seja demitido, e tornar-se a nova acompanhante do velho, matando-o em seguida, e ficando com sua herança. Rica, Norma ficará cara a cara com Léo. Percebe sua paixão por Marina (Paola Oliveira), com quem ele estará casado, e resolverá usá-la para atingi-lo. De que forma? Desfigurando seu rosto.




2. O casamento de Marina com Léo





O triângulo mocinho-mocinha-vilão sempre foi a grande mola propulsora de todos os bons folhetins. É importante que, em determinado ponto da história, o vilão conquiste a mocinha, case-se com ela, tornando-se uma pedra visível no sapato do mocinho. Até agora, Léo tem se fingindo amigo de Pedro (Eriberto Leão), seu irmão, e o bobalhão acreditando. Quando tentará tirar Marina deste, Léo mostrará quem é de verdade. O ódio do público pelo vilão e seu embate com o mocinho pode alavancar a novela, sim senhor.




3. O romance entre Raul e Carol





Relações que já começam erradas são boas formas de se engendrar histórias de amor interessantes. Os autores plantaram Raul (Antonio Fagundes), depois de perder sua empresa em Florianópolis e ver um projeto fazer água no Chile, dentro das Empresas Drummond, e frente a frente com Carol (Camila Pitanga), que o recebe de má vontade. A relação de trabalho dos dois está longe de ser das melhores: ela o acha turrão e prepotente, ele a acha autoritária e perseguidora. No que vai dar isso? Samba, é claro!




4. O triângulo Cortez - Nathalie - Wagner





Desde que entrou na trama, tive extrema simpatia pela história do banqueiro "barba azul" Horácio Cortez. Desonesto e corrupto, fez com que a mulher, Clarice (Ana Beatriz Nogueira, excelente em cena), morresse num acidente de carro forjado. E, desconfia-se, matou também sua esposa anterior a ela. Agora, deve se casar com a ex-Volúpia na Montanha Nathalie Lamour, e, caso ela o entregue à polícia, como é bem provável, tentar dar-lhe um fim parecido. Enquanto isso, Nathalie viverá sua própria volúpia na montanha com Wagner, o advogado de Cortez.




5. A continuidade das participações especiais




Tenho visto, desde Paraíso Tropical, com excelentes olhos a entrada e saída de personagens com função bem definida na novela. Não é Kubanacan, que todo mundo entra e sai sem um porquê. É algo sério, bem feito. Primeiro, Umberto (José Wilker), o irmão canalha de Raul, que transa com sua mulher, Wanda (Natalia do Vale). Depois, temos, dentre outros, Jonas (Tuca Andrada), Silveira (Hugo Carvana), Gisela (Ângela Vieira), Gregório Gurgel (Milton Gonçalves) e Araci (Cristiana Oliveira). Sem esquecer de Nívia Maria que, num dos melhores momentos da novela, viveu a morte, por ataque cardíaco, de sua personagem, Carmem, depois de ser enganada por Léo, e ver seu dinheiro voando pelas ruas do Rio de Janeiro. Que continua assim, e que a história continue com alta rotatividade.




Bom, essa é uma visão sobre a novela. Concorda? Discorda? Quer complentar? Vamos comentar! Abração!

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Affective memory: as melhores baladas românticas dos anos 80

Há quanto tempo que eu não fazia uma lista. Já estava com saudades de ser criticado pelas minhas escolhas... rsrsrs. Brincadeira. Sei que os leitores desse blog são de uma educação e de uma compreensão sem igual, e que sempre compreendem que se trata de uma memória afetiva, chegando, por vezes (olha só!), a concordar com meu gosto.

Hoje resolvi falar de romantismo à flor da pele. Afinal, mesmo quem não viveu, o que é o meu caso, tem saudade dos anos 80. Não só pelas suas roupas profundamentes coloridas e pelo florescente liberalismo pós-moderno que se consolidava, mas por um novo postar-se perante a sociedade. Nada de década perdida. Produziu-se muita cultura ali. E uma das mais marcantes era um pop rock, romântico e extremamente instrumentalizado. Bailinhos mundo afora, até hoje, tocam Roxette, Air Supply e Phill Collins.

Por isso, trouxe aqui as músicas que me aguçam os sentidos. Que causam em mim um festival sinestésico, do qual não consigo sair antes do último acorde. Que me deixam extático. Ei-las:


The Power of Love (Jennifer Rush)



Quem nunca cantou "O Amor e o Poder" pelo menos uma vez na vida que atire a primeira pedra. A versão brazuca, cantada por Rosana, que embalou as emoções da novela Mandala, tiveram como referência essa canção de Jennifer Rush, que prezava pelo clima transcendente que, em seguida, marcou a versão da novela.


Take My Breath Way (Berlin)



O tema inesquecível do filme Top Gun - Ases Indomáveis deu uma impressionante visibilidade ao Berlin, e a canção tornou-se um ícone nas paradas de sucesso durante e depois do filme. Todas as trilhas sonoras de vencedores do Oscar têm-na como faixa obrigatória.


Matter of Feelings (Duran Duran)



Muito antes dos Backstreet Boys, as boy-bands atraíam os gritinhos de adolescentes enlouquecidas. E, claro, não dá pra falar delas sem tocar no nome do Duran Duran. "Matter of Feelings" também vigorou entre as prediletas nas baladinhas. As meninas queriam agarrá-los, rasgá-los e beijá-los. Os meninos queriam sê-los, embora não admitissem.


Against All Odds (Phill Collins)



Não dá pra falar de baladas dos 80 sem citar Phill Collins. O rei do romantismo oitentista figura aqui com um de seus clássicos. Aliás, difícil destacar uma dele que não seja um clássico, portanto a escolha não foi das mais fáceis.


Endless Love (Lionel Ritchie & Diana Ross)



O tema de Amor sem Fim é uma das mais lembradas do consagrado Lionel Ritchie. A suavidade de sua voz, aliada num dueto belíssimo com Diana Ross ganhou mais e mais versões mundo afora.


Heaven (Bryan Adams)



Entre minhas favoritas está o tema de Babi na novela A Gata Comeu. Enquanto a patricinha ficava às voltas com seu amor pelo falso cego Zé Mário, o público se deleitava nos acordes de Heaven.


It Must Have Been Love (Roxette)



Dificílimo pra mim ser imparcial quando o assunto é esse grupo sueco. Mais ainda, quando o assunto é Marie Fredriksson, a sueca que assume os vocais. "It Must Have Been Love" ainda hoje é tocada à exaustão em festas Ploc, e figura sempre em discos do tipo Good Times.


Listen to Your Heart (Roxette)



Diferente da maioria, que curte mais a música anterior, minha predileta do Roxette é aquela que embalou várias cenas da novela O Sexo dos Anjos. Seu tom transcendente, ainda maior, tem cara de romances maiores que a vida. E nós lá, escutando.


Making Love Out Of Nothing At All (Air Supply)



Enfim, o hour concours dessa lista. Para muitos, um atentado aos diabéticos. Para mim, a memória de um belo momento de minha vida: a primeira paixão adolescente. Tinha um CD pirarinha na minha casa, da qual esta era a segunda faixa. O disco furou de tanto ser escutado. Uma música com um clímax perfeito, instrumentalizado à exaustão, pronto para embalar um jovem coração apaixonado.


Pra você, o que faltou na lista. Comente e opine! Abração!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

São tantas emoções: a telenovela como expressão da felicidade




Não é de hoje que tenho revisto meus conceitos sobre novelas. Pra falar a verdade, essa reconceituação é um processo contínuo, embora tenha se agudizado de uns tempos pra cá, desde que resolvi começar a falar abertamente sobre o assunto através desse veículo de comunicação. Afinal, o que é possível expressar sobre a atual situação da teledramaturgia? Apenas lamentar o marasmo, dizer que não se produz nada de novo, que a TV se tornou um mausoléu de estilos cristalizados? É pouco. Já passei muito tempo fazendo isso, e acho que perdi momentos preciosos de minha tenra juventude, em vez de, humildemente, propor possibilidades de revisão da teledramaturgia. Nada de novo, apenas um convite a voltar a olhar para a telenovela como já se olhou no passado e - sem querer ser anacrônico - rediscutir o grande valor que permeou o folhetim desde seu surgimento que era o de... transmitir emoções. Pois bem.



Muito se tem falado em técnica, em estilos, em fluidez nos diálogos, em dinamismo nas cenas. Muito se tem observado na expressividade dos atores, no figurino escolhido, no tom de voz usado para expressar-se nessa ou naquela cena. Nenhum pecado. De fato, o bom analista é aquele que vê a novela em seu todo, mas discutindo os detalhes. O grande problema é que nós (e me incluo nesse bolo), muitas vezes, achamos que analisar bem é criticar, apontar os defeitos, por mínimos que eles sejam, esquecendo-nos do mais importante que é esse TODO que constitui a telenovela, e no qual ator, autor e diretor pensam na hora de lançar o produto.



"Ah, mas esse olhar vai me recomparar ao público médio (ou ao sujeito ordinário?)", como se nisso habitasse o pior dos males para quem gosta de ver dramaturgia. Antes de qualquer outra coisa, meus queridos, fomos público médio, e gostamos muito de ser. E, acho eu, para sermos mais do que isso, temos que retornar, pelo menos um pouquinho, às emoções primárias vividas por esse público e, só a partir delas, fazermos nossas considerações. Ou isso, ou corremos o seríssimo risco de nos transformamos naqueles chatos, hieráticos, quadrados e saudosistas críticos de TV, que emos com tão maus olhos.




Mas, o que é fazer novela, então? Ou melhor, o que é fazer uma boa novela? Isso me inquietou por muito tempo. Justamente quando comecei a ver esse produto com um olhar mais apurado, passei a refletir o que constituia uma boa novela. E eis a surpresa: a resposta foi um retorno à mesmíssima visão que tinha quando assisti atrações como Olho no Olho, Cara & Coroa, Explode Coração, História de Amor ou O Clone: novela boa é aquela que me deixa feliz de ver.



O texto é tatibitate, e daí? A protagonista é ex-BBB, algum problema? As cenas duram mais de cinco minutos, e eu com isso? Não sou obrigado a virar um refém da técnica e, pior do que isso, da crítica. Da mesma forma que acho que o grande problema atuais é que elas se tornaram reféns de uma burocracia televisiva. Os autores e diretores se sentem obrigados a serem dinâmicos, a valorizarem a ação de maneira exaustiva, a escrever em escala industrial, a ter diversos pudores em nome da audiência, sem notar que são justamente tais elementos que mais afastam nosso público.



Novela boa é novela feita com gosto. É aquela que o autor escreve dando uma banana pra quem o chama de fantasioso, delirante. "Eu quero inovar, escrever uma mocinha lésbica, um mocinho obeso, uma vilã de 6 meses de vida". Mas e a audiência, e o povão? Azar! Ou então: "Eu prefiro escrever um folhetim onde a mocinha é abandonada no altar, depois descobre que tem uma herança milionária, fica rica, dança numa boate, se vinga do inimigo e depois desvenda um assassinato". Mas e a crítica, que vai me chamar de folhetinesco e sem-vergonha? Que se dane!



As últimas novelas pelas quais realmente me apaixonei foram feitas com amor, sem ligar pro que muita gente diria. E, coincidentemente, foram sucessos de Ibope. Glória Perez fez ouvido de mercador de camelos quando geral dizia que Jade viajava trocentas vezes pro Brasil em O Clone. Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari não ligaram pra quem dizia que estavam abusando das metalinguagens e da canastrice em Ti-Ti-Ti: investiram com gosto. É esse ato de coragem, é esse fazer da arte uma grande farra, que acho que faz falta em muitos trabalhos, e que defendo como a boa dramaturgia.




Acredito, sim, que as duas coisas são perfeitamente associáveis, mas se for obrigado a escolher entre ser partidário da técnica ou ser partidário da fantasia, fico com a segunda, sem culpa. Sei que posso ser achincalhado por essa opinião, mas acho que novela boa é aquela em que você dá asas à imaginação, seja lá o que ela lhe mande fazer. Você é louco, costuma ser chamado de esquizofrênico, cria estórias fantasiosas numa cabeça sem-noção? Largue as armas, meu irmão, e venha fazer novela. Tipos como você são necessários, e estão em falta.



Pronto, falei. Agora, que venham as pedradas.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Eu, um contrasenso acadêmico


Cada dia que passa me faz olhar ainda mais pra mim mesmo. E isso é mais estranho do que parece. Talvez seja a idade chegando, e essa adolescência tardia e mal-realizada se transformando numa vida adulta ainda tão imatura. Mas eu já superei essa fase de incertezas quanto ao meu próprio perfil psicológico-comportamental: me assumi como um prenúncio do anti-social, apesar da necessidade de estar próximo de gente; como um "homem de gelo", apesar da necessidade de abraços constantes; como um racional, apesar desse romantismo latente. Enfim, me defini como um contrasenso.


Essas reflexões têm ganho projeção maior no ambiente acadêmico, onde tenho vivido um momento profundamente particular. Estar no Mestrado é um sonho que eu alcancei. Me refazer nele a cada dia é um desafio que me foi colocado. A cada dia, seja de aula, seja da convivência com os colegas - nunca imaginei que seria tão significativa - me vejo uma pessoa nova. Não na minha essência: continuo o mesmo do parágrafo anterior, só que diferente. Deu pra entender? Não? Tá, deixa pra lá. Prossigamos.


Ontem foi um dia desses, de desconstrução do Fábio de tantos anos, e de reconstrução de um outro, que nem ele mesmo conhecia. Ontem eu levei um tapa na cara. Um tapa de luva, tão leve, mas tão leve, que continua doendo até agora. Um tapa que me fez ir dormir sentindo-o. Sabe por quê? Por que me vi ante os meus preconceitos, e senti vergonha de mim mesmo.


Eu, que sempre estufei o peito para me dizer um "filho da História Cultural". E não deixei de ser. Mas, ao falar isso, empostava a voz, inseria nele uma empáfia voluntária, um quê superior. Sabe o "eu sou, vocês não são"? Pois é. Eu, que ironizei com o mundo, com o que lia, com o que via ou que ouvia em contrário. Eu, que me propunha alguém de mente aberta, um catalisador de ideias, me mostrava o mais inflexível dos metódicos. Mea culpa.


Ante o Certeau, o Burke, a Pesavento, o Nora, eu esquecia de tanta gente... Do Hobsbawn, que li com tanta avidez em suas reflexões sobre a Revolução Francesa; do Peregalli, e suas construções sobre o modo de produção tributário; e, por que não, do Ranke, que me ensinou o quanto a organização é necessária no fazer historiográfico. Perdão.


Perdoem esse cara, que se achava tão pós-moderno, e se mostrava tão positivista. Perdoem esse poço de contradições. Perdoem quem criticou o reducionismo e determinou o mundo. Perdoem quem se negou a ler aquele que disse que a história acabou, por puro preconceito. E também àquele que renegou o resto da Escola de Frankfurt por ter medo de trazer a contradição pro seu trabalho. Eu errei. E seu que talvez não mereça o perdão. Mas eu juro que vou me esforçar.