segunda-feira, 4 de junho de 2012

O dia em que o palhaço se esqueceu de sorrir


Naquele dia ele não sabia o que fazer. Olhou pro picadeiro iluminado, e todos olhavam para ele, esperando uma reação. Esperava aquele sorriso marcado por maquiagem transformado em sorriso de verdade. Mas a única coisa de verdade era aquela lágrima pintada na ponta de seu olho, que ficava manchada pela lágrima de verdade que corria de seu olho.
Ele olhava para o trapezista. Era bonito voar debaixo da lona. Ele queria saber um pouco mais do que aquilo. Ele queria saber mais que as suas limitações de palhaço. Ele sonhava em saber voar por debaixo da lona, em saber esquecer da vida nos ares, desafiando a morte.
Ele olhava para o mágico. Era bonito tirar coelhos da cartola. Com um giro de condão fazer desaparecer a assistente. Era incrível, encantador, assustador saber ser trancado num cofre, jogado numa tina com tubarões... e depois reaparecer no picadeiro. Ele sonhava em saber encantar e assustar. Em saber fazer da fumaça nascer o sonho alheio. Em saber nascer fogo da água, cor do preto-e-branco.
Ele olhava para o domador de leões. Era fascinante ver como ele acalmava aquele animal enorme, selvagem. Era incrível ver como ele era respeitado, respeitando aquele bicho feroz, que era só um gatinho de tamanho avantajado. Ele sonhava em saber domar todos os animais.
Mas ele era só um palhaço, que perambulava pelo palco, contando piadas sem graça. Ela não sabia fazer nada além daquilo. Ele sentia vergonha de ser tão pouco, de saber tão pouco. Ele queria saber saltar pelos céus, voando. Ele queria saber desaparecer, virar outra coisa diferente daquela. Ele queria ser respeitado. Ele queria ampliar seus limites. Mas ele era só um palhaço, de ações limitadas. Ele usava uma maquiagem, e a única coisa que sabia era fazer rir. Como fazia naquele momento, com seu choro compulsivo e involuntário. Ninguém notava seu sofrimento, travestido de encenação. Ele era só um palhaço de maquiagem manchada, de roupa colorida de pano barato, gasta, de sapato maior que o pé. Ele escondia seu mundo preto-e-branco por trás de tanta cor, otimismo e alegria. Ele era um melancólico, vejam só!
Um palhaço melancólico! Isso, aliás, é um grande contracenso. Quando as luzes do circo se apagassem, ele virava gente, saía do sonho. A dançarina virava uma moça que pegava ônibus. O mágico, que era dono do circo, ia recolher o dinheiro arrecadado no dia, “talento traduzido em cédula”, “acordes em oferta”, “poesia metamorfoseada em cifrão”, “cordel em promoção”, “música rara em liquidação”. Tudo acabava, pra recomeçar na noite seguinte, onde o sonho dos outros ia ser alimentado por aquela gente humana toda.
Mas e dos sonhos do palhaço, alguém se lembrava? Alguém pensava que ele queria um abraço? Que ele sentia uma dor profunda por não saber voar? Por não saber encantar com palavras mágicas e purpurina? Por não ser o rei dos animais? Que aquela maquiagem manchada por uma lágrima que corria era só uma das muitas lágrimas que ele chorava todo dia? Que ele amava a dançarina? Não, ninguém lembrava. O palhaço está aqui só pra nos fazer rir.
Mas naquele dia ele se esqueceu de sorrir. Ele não sabia como transformar aquele riso largo da maquiagem borrada em riso de verdade. Como esconder que o seu nariz vermelho postiço escondia um nariz vermelho de choro? Como dizer que aquilo tudo era só mais uma de suas encenações, e dar uma cambalhota? Ele nem sabia dar cambalhotas. Ele era um palhaço limitado, que só sabia fazer rir com piadas sem graça.
Na verdade, ele nem queria deixar de ser palhaço. Ele só queria ser um palhaço que sabia um pouco mais, além de sorrir e de contar piadas sem graça. Ele só queria aprender a rir outro riso. Mas, de repente, aquilo tudo também era parte da encenação que ele estava fazendo, e nem ele mesmo sabia. Quando o pano caísse, todos os outros atores o abraçariam, porque ele desempenhou seu papel com tanta verdade, mas tanta verdade, que se esqueceu de sorrir.

domingo, 3 de junho de 2012

Hoje é dia de ser subjetivo

Ando me tornando uma espécie de vítima da saudade. Uma espécie de saudade crônica, essa que me persegue sempre, esse medo de perder as pessoas que eu tenho por perto se passar um, dois dias sem falar com elas. O distanciamento me causa um grande medo, oriundo, talvez, de minha introspecção natural. Talvez o tolhimento de algumas atividades que me direcionam para fora, para perto das pessoas, me fez crescer isso. Mas não é só isso. Eu não sei explicar. Hoje é dia de ser subjetivo, e também de ser breve.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

O médico e a trapezista

Para ler ao som de “Beatriz”, de Chico Buarque. Danças, piruetas e tanta gente mascarada. Parece distante, parece perdida, parece fazer parte de outro mundo. Você está lá, voando, e eu aqui, comendo pipoca, e ainda nem tirei a roupa com a qual saí da faculdade. Você deve ter passado o dia voando, e eu passei o dia vendo um cadáver na aula de anatomia. Você está maquiada, eu estou com os cabelos desgrenhados e os óculos sujos. Sua roupa é tão fina, tão colorida, que seu corpo parece se mostrar pra mim, só pra mim. Eu não sei piscar, desaprendi a tirar os olhos de você. Eu desaprendi a aprender. Que estranho, né? Mais estranho é que pra mim, você vai estar ali, sempre voando, sempre saltando de um trampolim para o outro, eternamente. O que você faz quando sai do picadeiro? O que você pensa no seu camarim? Que mundo é o seu, hein? Que amores, que dores, que prazeres te ocorrem, te afetam? Será que você chora? Será que uma lágrima perpassa essa maquiagem, manchando o negro em torno dos seus olhos? Que nome você tem? Outro dia, eu pensei em te seguir. Em ir junto com você até seu outro mundo, em experimentar, nem que fosse por um segundo, fazer parte dele. Eu não sou ninguém, eu não tenho nada, eu sou um garoto magricela num jaleco branco, e você... você eu não sei. Você é tudo aquilo que eu não sou, é tudo aquilo que me fascina. Você e sua roupa transparente, seus olhos negros, fundos, que me dizem tanto. Você é essa pele branca, é esse rosto encoberto por uma maquiagem que foi, um dia, nem que seja por um segundo, manchada por uma lágrima que correu, por alguém que te fez sofrer. E se, um dia, você despencar do céu? E se os pagantes exigirem bis? E se ali termina a sua vida divina, e se começa a minha tragicomédia? E se, ali, eu descobri que você era uma boneca eletrônica, programada pra saltar de um trapézio a outro, dia após dia? Quem é você, afinal? Que nome tem, o que faz, tem namorado? Eu pensei em você, e pensei em me transportar para esse labirinto desconhecido e desconcertante da sua vida, sem medo de me engendrar por Céu, Inferno ou Purgatório. Você não tem nome, mas eu te chamo de Beatriz...

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Das coisas que eu (não) entendo

Parece que o tempo vai passando, e a gente vai ficando cada dia mais burro. Nossas ideias começam a caducar. Outro dia mesmo, eu me via pensando em certas coisas que permeiam nosso tempo, e que, amanhã, serão ultrapassadas. Me imaginei como aqueles velhos ranzinzas e saudosistas, cheio de reminiscências, dizendo que bom/correto/gostoso/moral/benfeito era no meu tempo. Essa sensação deve ter qualquer coisa a ver com as entradas, que começam a aparecer com mais promiscuidade, e com os cabelos brancos, que estão (ainda timidamente, mas estão) começando a se espalhar pelo meu couro cabeludo. E o pior é que a velhice está vindo antes de algumas coisas que a juventude proporciona... Não quero aqui me lamentar por nada, porque não há motivos. Mas quero refletir sobre o tempo. Esse tempo do qual faço parte, ao qual sou sujeito, e aos afetos. Tem momentos em que certas coisas me afetam mais fortemente, e não tem grandes explicações. São momentos em que a vida me parece um banco de praça, num monte de onde se enxerga o pôr-do-sol. É nesses dias que me sinto o personagem da música do Capital, que vê nos reflexos do outro mais tranquilidade, menos nóias do que nos seus: "Não sei onde, quando ou porquê um dia eu percebi, a vida é mais doce pra você, tem um gosto que eu nunca conheci...". Pois é, "o tempo corre e eu preciso te alcançar...". Enquanto isso, eu olho pra trás, e vejo que o tempo está passando numa velocidade impressionante. As coisas vêm se processando num ritmo de foguete, e eu não sei se eu mesmo estou conseguindo me acompanhar. É complicado. Se, num momento, você se enxerga numa praça provinciana, no outro, você está no meio do trânsito de uma capital caótica, e, em seguida, num quadro de Salvador Dalí, ou num filme de Jean-Luc Godard. Não sei ao certo. Mas tudo isso metaforicamente, claro. Enfim, pra não perder o fio da meada: o tempo... Ele parece mais bonito na letra de Caetano, sendo "um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho", a quem posso fazer um pedido. Ele é inventivo, parece contínuo, e aparece ainda mais vivo no som do meu estribilho. O tempo, um dos deuses mais lindos. O deus do caos, talvez. O deus da estabilidade, provavelmente. Essa faceta divina de nossas próprias vidas, que nos atravessa, indelével, que nos afeta de forma tão direta e objetiva. Talvez minhas ideias estejam, mesmo, começando a caducar. É nesses momentos que, de repente, parece que há um fosso entre você e os outros. Desse fosso, é dele que eu tenho medo. Me causa pânico a distância, a possibilidade de eu estar me tornando um dinossauro caduco, repulsivo, o lado negativo de um ímã. Me causa pânico, com 22 anos, prestes a completar 23, eu me ver como um velho chato, ranzinza e saudosista, cheio de ideias caducas e um moralismo barato. Ouvindo meu bop, lendo textos marginais, vendo flmes em super-8... ou, talvez, ouvindo música pop, lendo HQs e vendo um filme de aventura no Telecine, tanto faz. O tempo me atravessa.

domingo, 15 de abril de 2012

Transando (com) as palavras - e olhem o duplo sentido

A fala me assusta. Os signos me fascinam. Talvez seja essa a minha característica enquanto falador, fazedor e escritor. É isso. É mais fácil pra mim escrever do que falar. É mais fácil ser um enunciador, um codicista, um malandro das palavras. É mais difícil ser um fazedor de traquinagens no mundo real.

Expliquemos e exemplifiquemos melhor. Luís Fernando Verissimo é assim. Nos textos, é ferino, é mordaz, é loucamente cotidiano, é um penetrador promíscuo na vida real. Na vida real é um tímido, vejam só.

Parece uma espécie de carma, uma espécie de sina, uma espécie de vício. Eu sou como sou: promíscuo escrevendo, um copulador com as palavras, com os termos, um inventor de significados. Fazendo e falando, eu sou certinho, sou padrão. Quem sou eu, na verdade? Acho que sou os dois. Sou essa química perversa.

Ou não tão perversa assim. Falar, fazer e escrever são três estatutos de realidade. A enunciação oral inventa, a enunciação escrita inventa, o ato físico inventa. As três invenções são reais. Eu escrevo como quem faz, mas não falo como quem escreve. Tampouco faço como quem escreve.

Melhor continuar sendo esse gigolô da linguagem, esse filho do puta-português, dos puta-signos, da refazenda que é o papel, que são esses sinais malcriados. É bom ser travesso com as palavras, né, Torquato Neto? Né, Faustino? Né, Durvalino? Né, Gullar? Né, Jomard?

Vamos brincar escrevendo, escrever fazendo, escrevivendo. Azulcriando realidades no céu vermelho da linguagem. Vamos poetar e cuspir no mundo. Que isso, Certeau, também é arte de fazer.