terça-feira, 14 de agosto de 2012

Chayenne e o Piauí visto por outros olhos


Já há algum tempo, o Piauí – que sempre reclamara de ser um estado esquecido pela grande mídia – começa a se tornar destaque no cenário nacional. Meu amigo Vitor de Oliveira costuma dizer que o Piauí está tendência, e não há definição melhor.
 
 
Em 2007, a novela Sete Pecados mostrou o Parque Nacional de Sete Cidades como o lugar onde rola a grande virada da trama: o aparecimento de Flávio (Paulo Betti), pai da protagonista Beatriz (Priscila Fantin). Em 2008, Gyselle Soares não só era uma das participantes do Big Brother Brasil 8, como figurou entre os grandes favoritos da edição, chegando a ser a grande cotada ao prêmio final (que perdeu, por milésimos, para Rafinha Carvalho). Entre 2008 e 2009, figuras como Stefanny Absoluta e Lucas Brito se tornam celebridades virtuais, aparecendo em diversos programas de televisão. Em 2010, a novela Passione fez merchandsing da Hounston, maior fábrica brasileira de bicicletas, sediada... em Teresina!
 
 
Atualmente, o Piauí é destaque por muitos motivos. Sarah Menezes é judoca de ouro nas Olimpíadas de Londres. E, numa proporção global, a novela Cheias de Charme possui um núcleo de personagens piauienses, dentre os quais destacam-se os personagens Naldo (Fábio Lago), Socorro (Titina Medeiros), Epifânia (Ilva Niño) e, principalmente, Chayenne (Claudia Abreu), grande estrela da novela, com suas tiradas sensacionais.
 
 
E é Cheias de Charme que me traz aqui, especialmente pela reação dos meus conterrâneos à novela. É, inclusive, momento para se fazer um apanhado de outras reações piauienses às demais aparições na grande mídia.
 
 
Quando da exibição de Passione, tínhamos uma visão sobre Teresina, sob um aspecto bem positivo e moderno. A capital piauiense era mostrada com toda a sua beleza, exibindo a recém inaugurada Ponte Estaiada, o Metropolitan Hotel, os shoppings, flashes das danças de boi, e a riqueza da Hounston em pleno funcionamento. Nessa época, ouvi a reação de que a Teresina que ali aparecia era filtrada, maquiada, mostrando apenas seu lado bonito, e não as muitas dificuldades e problemas sociais que se apresentam na cidade.
 
 
Meses antes da estreia de Cheias de Charme, tive notícias de amigos da minha cidade de família (Piracuruca), de que haviam visto uma equipe de globais (os atores acima descritos) abastecendo o carro num posto de gasolina na cidade. E eu pensei: “Opa! O Piauí na TV!”, com a mesma preocupação com a qual pensei: “O que a galera daqui vai falar?”.
 
 
Essa preocupação advém do fato de que tenho sempre a incômoda impressão de que, em geral, nós piauienses somos de um extremo bairrismo. Nossa mania de inferioridade é uma potencialização da maneira inferior como, em geral, se veem os nordestinos. Sempre vamos procurar uma perseguição, uma tendência à humilhação nas formas como aparecemos na grande mídia.
 
 
Como piauiense, fico EXTREMAMENTE FELIZ de ver os personagens de Cheias de Charme fazerem referências sensacionais ao Piauí. Luiz Gonzaga cantando “United States of Piauí” é um clássico. Chayenne fazendo referências ao Mercado da Piçarra, em Teresina, e ao ouro olímpico de Sarah Menezes são homenagens mais que honrosas.
 
 
Adoraria que a maior parte dos meus conterrâneos pensassem assim. A equipe de Felipe Miguez e Izabel de Oliveira conduzem com bom humor (e uma dose extra de gliter) um grupo de personagens que, com variações em formas de agir e pensar, representam, alegoricamente, o povo piauiense. Acredito, também, que personagens como esses são canais para que, em trabalhos futuros, mais e mais facetas do Piauí, um Estado culturalmente múltiplo, se destaque na televisão brasileira.
 
 
Um brinde a Chayenne, Naldo, Socorro, à panelada da Piçarra e à maria-isabel de dona Epifânia!
 
 
Para uma outra leitura piauiense, bem positiva, a respeito da novela Cheias de Charme, ver:

O coração sempre arrasa a razão

Por Paulo Ricardo Muniz Silva

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Meras variações sobre o mesmo tema. Amor. Substantivo. Amar. Verbo.
Rapaz #1: Como você a conheceu? Amigos em comum? Vocês freqüentavam os mesmos lugares?
Rapaz #2: A história é complicada. Sim, já faz uns 10 anos que freqüentamos os mesmos lugares.
Rapaz #1: Então, vocês já conhecem há 10 anos e só agora....
Rapaz #2: Não, não. Freqüentávamos os mesmos lugares, mas nunca nos vimos.
Rapaz #1: Como assim, mas..
Rapaz #2: Nos conhecemos há pouco mais de 2 meses. Minto, na verdade já nos conhecemos há pouco mais de 3 meses!
Rapaz #1: Rum, não to entendendo, porque parece que você se conhecem há tanto tempo.
Rapaz #2: Pois é né? Todo mundo diz isso. Nós dizemos isso a nós mesmos.

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Certo dia a vi, de longe, só seu rosto. Simplesmente linda. Só conseguia ver da cintura pra cima. Ela estava com uma blusa preta com alguns detalhes que minha péssima memória, que gosta de me trair quando mais preciso dela, não deixarão eu lembrar com a riqueza de detalhes que gostaria. Acho que chamam aquilo de paetês. Bem, não sei ao certo. Ela ria, apenas. Mas não era qualquer riso. Era pra mim. Era pra mim que ela ria, como se ao mesmo tempo dissesse feliz da vida que era por mim que tanto esperava. Eu ri, meio tímido, não sabia o que fazer. Minha sorte.... melhor dizendo, nossa sorte é que tínhamos, dentre tantos amigos em comum, um em especial. Foi ele quem de certo modo me ajudou, nos ajudou, nos fez quebrar o gelo e que “a coisa” fluísse normalmente. Ela ainda ria. E a cada vez que olhava seu rosto algo me encantava ainda mais. Perguntei a mim mesmo: por que não? Tive receio. Travei. Perdi uma batalha sem ao menos lutar. Lembrei do nosso amigo em comum, que certa vez me disse: “nunca deixe que lhe digam que não vale a pena acreditar no sonho que se tem...quem acredita sempre alcança”. Rimos. Eram tantas coisas em comum: gostos, desgostos, preferências. Comidas, música, lugares. Parecia que já nos conhecíamos há tanto tempo. Fomos a lugares sem nunca imaginar da existência um do outro. Por que não te conheci um dia antes? Porque tudo tem sua hora e seu lugar.
1 mês depois, um filme, um parque, uma caixa de bis branco. Um beijo. Um abraço. Uma mensagem e algumas fotos.
No outro dia a saudade era algo que não se media com palavras. E a espera que ia durar quase que 72 horas (uma eternidade) não durou nem 1 dia.
E desde esse dia, todo dia um pouco mais...
O coração sempre arrasa a razão e o que tá escrito na canção ninguém precisa entender...

* * *
Paulo Ricardo é mestrando em História do Brasil pela Universidade Federal do Piauí e Professor Formador II pelo PARFOR - UESPI/UFPI. Antes disso tudo, é um cara apaixonado.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

SuperCult entrevista Thelma Guedes

O SuperCult tem a honra de receber mais uma deliciosa participação. Autora de livros, bacharel em Letras e mestre em Literatura Brasileira, Thelma Guedes atuou na televisão como colaboradora de várias novelas, dentre elas Chocolate com Pimenta e Alma Gêmea, de Walcyr Carrasco. Em 2006, iniciou sua parceria profissional com Duca Rachid, com quem adaptou para a Rede Globo a novela O Profeta, de Ivani Ribeiro, e com quem escreveu, na mesma emissora, as novelas Cama de Gato e Cordel Encantado. Passeando sempre entre muitos estilos como dramaturga, sem perder fortes marcas autorais, a parceria Thelma/Duca tem se firmado como uma das mais promissoras na teledramaturgia contemporânea.

Thelma Guedes, em fotografia de Cristina Granato

Com delicadeza e simpatia, Thelma traz algumas de suas reflexões a respeito de seus trabalhos e do próprio gênero dramatúrgico.

SC– Como vai, Thelma? Em primeiro lugar, é um prazer tê-la como entrevistada no blog. Gostaria que você começasse falando como começou seu interesse pela escrita e, especialmente, pelas novelas.

Meu interesse começou quando eu era menina ainda. Desde que li os primeiros livros, meu sonho passou a ser me tornar escritora. Eu sempre fui apaixonada pela literatura. Fiz o bacharelado em Letras e o mestrado em Literatura Brasileira. Mas, embora eu adorasse assistir novelas, meu desejo era escrever livros. A televisão aconteceu quase por acaso. Eu trabalhava como divulgadora na editora da Universidade, na época da pós-graduação, e estava para lançar meu primeiro livro de contos, em 1997, quando vi num quadro de avisos que estavam abertas as inscrições para uma oficina de roteiro da TV Globo. Eu me inscrevi com o primeiro roteiro que escrevi na vida. Nem sabia que sabia escrever roteiro... Fui selecionada para cursar a oficina e acabei sendo contratada como roteirista em 1997. Trabalhei em alguns programas, até chegar nas novelas, como colaboradora. Em 2006 escrevi minha primeira novela com a Duca Rachid. E agora estamos começando a trabalhar na nossa quarta novela, que deverá entrar no ar em setembro de 2013.
SC – “Adaptar é trair por amor”. O que essa frase significa, quando você pensa no remake de O Profeta?

Eu disse essa frase no programa do Faustão, na época do lançamento da novela. Foi algo que ouvi a Duca repetir muitas vezes. Uma afirmação que ela ouviu de Walter George Durst, com quem a Duca trabalhou antes de vir para a Globo. Durst era um grande mestre, que escreveu adaptações maravilhosas, algumas que se tornaram clássicos da televisão, como Gabriela e Grande Sertão Veredas. O que ele disse é uma grande verdade. A adaptação sempre exige certas “traições” em relação à obra original. Não é possível mantê-la intacta. Mas as mudanças devem ser sempre para atualizá-la e manter sua força, seu brilho. No caso de O Profeta, cujo original foi escrito pela Ivani Ribeiro em 1978, muita coisa precisou ser alterada, para mantê-la interessante aos olhos do público de 2006. Além de criarmos núcleos de comicidade, que na original não havia. Acho que a maior mudança que fizemos foi criar um impedimento mais concreto para o amor entre o casal protagonista. Criamos um vilão forte, o Clóvis, que na primeira versão não era vilão. Mas a essência da história da Ivani estava lá! Mantida, exatamente como na primeira versão.
SC – Cama de Gato foi marcada por uma trama de viradas constantes e por uma narrativa acelerada, que prenderam a atenção dos espectadores. Como surgiu a ideia da novela?

A ideia de “Cama de Gato” surgiu quando Duca e eu estávamos escrevendo outra sinopse, que na verdade iria mais tarde se tornar “Cordel Encantado”. Nos intervalos do nosso trabalho, a gente saía para almoçar ou tomar um café e ficávamos “filosofando” a respeito de um sentimento que ambas tinham sobre o mundo atual, onde as pessoas estão cada vez mais individualistas, sem delicadeza, sem alteridade e empatia. Numa dessas vezes, estávamos no restaurante e vimos um sujeito rico, muito esnobe e arrogante tratando mal o garçom. A gente começou a pensar se aquele sujeito estivesse perdido no meio do deserto, sem um tostão no bolso, sem cartão de crédito, sem documentos, sem o celular, como é que ele ia reagir. Será que, se colocando numa posição de desamparo, ele se transformaria? De certa forma, aí nasceu o Gustavo. Aí a Duca se lembrou de um livro que ela tinha lido sobre uma tese de uma rapaz que se vestiu de faxineiro e que não foi reconhecido pelos colegas professores da universidade. Foi então que criamos a faxineira Rosenilde. Uma mulher humilde e íntegra, que seria a única a ajudar este homem altivo e esnobe, quando ele perdesse o poder. E por aí fomos montando a história...
SC – Como historiador, percebi em Cordel Encantadouma multiplicidade de referências. Por acaso o Armorialismo foi uma delas? Se sim, como ele foi aproveitado por você e por Duca na construção da história?

Sim, foram muitas as referências que usamos. Muitas mesmo! Como na literatura de cordel, Duca e eu sentimos que nesta novela podíamos usar tudo o que conhecíamos, misturar tudo, sem pudor: contos de fadas, histórias reais de cangaceiros, clássicos da literatura de capa e espada, histórias medievais, peças de Shakespeare, tragédias gregas e, claro, a obra de Ariano Suassuna. Uma obra que de certa forma também faz esse tipo de mistura.
SC – Como você vê a recepção das telenovelas no ambiente universitário? Ainda há muito preconceito?

Acredito que uma obra feita com qualidade acaba sendo reconhecida por todos os públicos. Acho que o preconceito em relação à telenovela no ambiente universitário quase não existe mais. Porque todo preconceito é uma forma de ignorância. E não tem sentido existir preconceitos num local onde as pessoas estão buscando o conhecimento e a sabedoria.

SC - Thelma, muitíssimo obrigado pela entrevista! O SuperCult agradece, em nome de seus leitores, pela oportunidade de privar de suas palavras e opiniões. Abraços!

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Sobre ser "vampiro"



Cada dia mais, me sinto parecido com Dalton Trevisan. Virar um “Vampiro de Teresina” nunca foi exatamente um sonho, mas bem que eu estou me tornando cada dia mais soturno. Mais sério, mais calado, talvez até mais ranzinza. Mas enfim, também não sou nenhum monstro. Reservado, talvez. Uma espécie de morcegão que anda à luz do Sol, vire e mexe. Mas que dorme a noite toda, vejam só!



Dalton, o “Vampiro de Curitiba”, marcado por seus contos urbano-contemporâneos, sai à noite, anda pelas sombras, evita o assédio da imprensa, dos leitores, de quem quer que seja. Eu saio aqui e ali, seguindo meu itinerário, meus hábitos, uma ou outra intuição (insights, por assim dizer).



Mas termino me tornando um vampiro no mundo real, e um personagem no virtual (vá, um personagem muito parecido comigo mesmo. Ou melhor... “eu mesmo” existo?). Ando soturno. Ando melancólico. É uma faceta da minha personalidade. Talvez eu ande um pouco focado demais (tipo a foquinha dos “memes” no Facebook, é bem aquilo ali) em uma faceta da vida e de menos em outras. No fundo, não tô reclamando. Na verdade, eu não sei ser diferente.



Minha personalidade “vampiresca” se alimenta de um tipo muito específico de sangue: reações pequenas, sensíveis de carinho alheio, me tocam de uma forma especial. Às vezes ser “curtido” na rede social é muito, me causa uma imensa felicidade. Às vezes umas duas lágrimas involuntárias. Um filme, nem precisa ser meloso. Uma cena, quase nunca uma cena romântica (manifestações de amizade, de senso de justiça, de parceria, de superação me emocionam bem mais). No geral, retorno pra minha cripta, chamada notebook, pros meus textos, pras minhas músicas, pra minha criatividade oscilante. Viro um estofado humano, que se transforma em “gente” em poucas situações (a sala de aula é uma delas). Uma personalidade um tanto difícil, um tanto irascível, que não vocifera contra ninguém, mas cuja forma mais latente de se expressar é escrevendo pra um blog que pouca gente lê.



A luz do sol, a luz da lua, a luz dos postes, uma luminária. O boom da cidade me fascina, mas mais à distância. De repente eu sou uma vítima da armadilha social que criei pra mim mesmo, sob a alcunha de “homem de gelo antissocial”. Se eu não era, acho que passei a ser. Tenho momentos de reação a isso, claro. Mas não sei ser pressionado. Já pressionei a mim mesmo a ser diferente, e não reagi bem. Preferi me resguardar a ser isso mesmo, o que me machuca muito menos.



Recentemente, parece que isso ficou mais forte. Vai passar. Não sei se quero que passe. Enfim. Só tenho medo de que não me entendam, de que me julguem. Juro que não faço por mal.



Uma página de um autorretrato meio incômodo tá bom, né? Ok, parei por hoje.

domingo, 8 de julho de 2012

Avenida Brasil: ousadia com competência


Uma protagonista dúbia, que cometerá atrocidades por justiça. Assim, em outras palavras, definiu João Emanuel Carneiro a protagonista de sua novela, antes da estreia. Avenida Brasil, atual trama das 21h da Rede Globo, e trabalho mais recente do autor prodígio da emissora, repete sua ousadia, ao tentar subverter a noção tradicional de “heroína” e “vilã”, tornando seu trabalho uma espécie de experimentalismo dramatúrgico. Em sua novela anterior, A Favorita, João Emanuel passou dois meses inteiros levando o público a achar que Flora (Patrícia Pillar) seria a grande mocinha, e Donatela (Claudia Raia) a vilã da trama, invertendo radicalmente os papéis com a revelação da verdade, através de uma frase de Flora, que se tornou uma expressão clássica de nossa teledramaturgia: “Você não é uma assassina como eu”.

Em Avenida Brasil, o autor permanece com sua tática de incomodar o público, e fazê-lo repensar sua própria concepção sobre o gênero telenovela. O faz de forma genial, visto que experimenta sem afastar a audiência (Avenida Brasil se mantém como um dos maiores sucessos recentes do horário). Sem grandes compromissos com a “realidade”, ou com os grandes temas a serem debatidos no Brasil, a trama se caracteriza mais, como bem descreveu Vitor de Oliveira, como uma “fábula pós-moderna”, na qual uma versão atual da Branca de Neve resolve se revoltar contra a madrasta má.

A mocinha vingativa é o fio condutor da trama. Nos primeiros capítulos, vimos a pequena Rita (Mel Maia) sofrer atrocidades das mãos de Carminha (Adriana Esteves), sua madrasta adúltera, e Max (Marcello Novaes), seu amante e comparsa. Os dois são, indiretamente, responsáveis pela morte do pai da garota, Genésio (Tony Ramos) e por seu abandono no lixão, nas mãos do asqueroso Nilo (José de Abreu). Tantas adversidades são os motivos para que, ainda pequena, Rita desejasse a vingança contra a madrasta, vingança que passa todos os anos seguintes arquitetando. Chega à idade adulta e, sob a identidade de Nina, identidade essa que ganha após ser adotada por um casal de argentinos, passa a executar tal vingança de forma fria e calculista.

O conflito ético que permeia as ações da heroína apontam para sua postura dúbia, o que faz com que, em certos momentos, tome atitudes de vilã – atitudes estas que levam, também, por alguns momentos, a uma vitimização de Carminha. Nina planeja a aproximação com Ivana (Letícia Isnard), irmã de Tufão (Murilo Benício), atual marido de Carminha, de forma que esta a ajude a penetrar na casa da família como cozinheira. Lá, descobre que Jorginho (Cauã Reymond), filho adotivo da família, é Batata, seu amor de infância no lixão. Mas passa por cima desse amor para prosseguir com seu plano de vingança, aproximando-se de Carminha e ganhando sua confiança. Para desviar a atenção da patroa, cria uma “Rita fictícia”, usando a amiga Betânia (Bianca Comparato). Ao longo do tempo, Nina pratica coisas duvidosas, em termos éticos: comete roubos, magoa e prejudica as pessoas que estão no caminho de sua vingança – Jorginho, Betânia, Lucinda, etc. Engana Tufão, usa Ivana, faz das pessoas peças em seu tabuleiro de xadrez – onde o Rei a ser batido é Carminha.

As atitudes da protagonista não param por aí. Spoilers apontam que ela se casará com Tufão para se vingar de Carminha, e que, desconfia-se, pode ter sido responsável pela morte de seu pai adotivo, Martin (Jean Pierre Noher), para que tivesse o caminho livre para a execução de seu plano.

As atitudes de Nina são permeadas pela pergunta que marcou a campanha de lançamento da novela: “Até onde você iria por justiça?” Nina vai longe demais. Por enquanto, porém, parece ter uma grande parcela do público ao seu lado, o que mostra que, se bem contada, uma história na teledramaturgia brasileira não precisa seguir padrões os mais tradicionais. Certas ousadias não funciona por falta de competência, ou, pelo menos, de sensibilidade de seus roteiristas, ao imaginar para que público-alvo escrevem. A “nova Flora” luta por justiça, e mostra que, ao público, há um quê de sedutor em personagens centrais que não são tão sofredoras e vítimas das circunstâncias assim.

João Emanuel Carneiro está aí pra quebrar estereótipos, ou para brincar com eles, desafiá-los, expondo-os aos seus limites. Isso sem perder o mote de popular que uma novela necessita. Há em JEC uma sensibilidade que parece ausente de certos grandes nomes da teledramaturgia, que insistem em uma postura que, de tão revolucionária, se mostra distante dos objetivos da TV que paga seu salário. Afinal, nada é mais hipócrita do que firmar combinados, e idealizar atitudes diferentes daquelas. No futuro, João Emanuel Carneiro será lembrado, ao lado de outros grandes nomes, presentes no panteão dos roteiristas de TV. Ousar é pra poucos. Ousar com competências é pra um número mais reduzido ainda.