quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O quê que há na pornochanchada

É de conhecimento geral da nação que sou um rapaz comportado. Comportado mesmo, o tipo respeitador, cavalheiro, pra casar. E sou, compenetro-me da condição. Mas é impossível, mesmo para tipos como eu, não desviar seus olhares para lados, digamos, "menos comportados" de outras facções da vida e, em especial, da arte. Porque a arte é, por sua essência, transgressora, atrevida e mal-comportada, graças a Deus.

Vamos falar de cinema, que tem sido um dos meus assuntos favoritos nos últimos tempos (ao lado de BBB, literatura, neurociência, física quântica e outros assuntos metafísicos). Como já falei do cinema marginal, dedico-me, aqui, a uma outra faceta da sétima arte, não menos controversa: as pornochanchadas.

Escandalosas, cômicas, divertidíssimas, elas eram tudo, menos pornográficas. Salvo, claro, algumas exceções, como o clássico Ó, Rebuceteio, a pornochanchada é o que há de mais inocente em termo de material que tem em seu bojo principal o tratamento a questões da sexualidade, ou, pelo menos, da sensualidade, o que se mistura. Inspirados nas comédias italianas, e buscando atingir um maior público que o "cinema de conceito", em geral, se enquadram no chamado "erotismo softcore", com insinuação de sexo, porém sem explicitação.

É óbvio que o governo da época, a década de 70 e o auge da Ditadura Militar, não entendeu a coisa dessa forma. Censurou, vetou e cortou sem dó nem piedade. Muitos dos filmes que chegaram a ser liberados tiveram cortes tão profundos que seu entendimento ficou seriamente comprometido. A visão da época, que distanciava a pornochanchada da arte cinematográfica dita "séria" fez com que o cinema brasileiro ficasse estereotipado como sinônimo de nudez, palavrões e toda sorte de baixarias. Injustiça? Em parte, sim. Principalmente porque comprometeu muita coisa boa, que poderia ser reverenciada até os dias de hoje.

Aí vão alguns exemplos de pornochanchadas que marcaram o cinema nacional.



A Super Fêmea (1973)





Vera Fischer, aí como seus 22 aninhos, protagoniza o filme que teve como um de seus roteiristas Lauro César Muniz, vivendo uma modelo que faz propaganda de uma pílula contraceptiva masculina. Para conquistar a confiança do público-alvo, que teme que o produto cause impotência, as gravações do comercial contam com cenas pra lá de picantes. Hilária a cena em que Carlos Coelho tem de "arrebatar" a beldade, e é interrompido pelo diretor que acha que ele tem que ter mais, digamos, pegada na atitude. "Uma mulher boa dessas!", brada o diretor. Vale a pena conferir.


Amante Muito Louca (1973)

Muito mais que pornochanchada, uma grande comédia de costumes da sociedade brasileira à época. Cláudio Corrêa e Castro é um gerente bancário de vida padrão, que tem uma mulherzinha submissa e dois filhos adolescentes. Também tem uma amante (Tereza Rachek), que entende de ir à praia na qual a família vai passar férias.


A Árvore dos Sexos (1978)





Nesse clássico, dirigido por Sílvio de Abreu, Nadia Lippi e Ney Santanna protagonizam a história passada numa cidadezinha com uma árvore que faz as mulheres engravidarem. Depois da descoberta, as mulheres do local passam a ter uma vida sexual, digamos, mais liberal, podendo depois botar a culpa na árvore. Isso sim, uma verdadeira sacanagem...


Snuff - Vítimas do Prazer (1977)






"Estreia hoje o filme que mata!", anunciou o jornal Notícias Populares quando da estreia desse exemplar, em seu caderno de variedades. O enredo contava de dois diretores de cinema que contratam atores e equipes de filmagem para um suposto "filme pornográfico", quando a ideia é filmar um autêntico "snuff movie", com cenas de morter reais. Tenso. :



Nos Embalos de Ipanema (1978)






Neste, dirigido pelo hoje autor de novelas Antonio Calmon, André De Biasi é Toquinho, um garotão surfista que se prostitui para tentar conseguir realizar seu sonho de surfar no Hawaii. O ambiente do surf e o fundo musical "Sossego" de Tim Maia marcaram a vibe solar que caracteriza Calmon até hoje.


Histórias que Nossas Babás não Contavam (1979)






Aqui, Costinha e Adele Fátima protagonizavam uma sátira ao conto de fadas Branca de Neve e os Sete Anões. Clara das Neves (Adele) é perseguida por sua madrasta má, que conta com a assessoria de um espelho mágico homossexual. A madrasta manda um caçador (Costinha, tinha que ser ele) matá-la. Mas ele, que não era bobo, troca aliberdade de Clara por "favores". Nem preciso entrar em detalhes. A morenaça foge para o meio da mata, até encontrar uma cabana onde vivem 7 anões. Ali sim, ela não escapa.



Amor Estranho Amor (1979)






Não chega a ser exatamente uma chanchada, por conter um conteúdo mais sério e dramático que os demais. Tornou-se, porém, uma lenda entre os aficcionados pelo gênero pela polêmica participal de Xuxa Meneguel, então com 16 anos, como Tamara, uma prostituta que teria sua falsa virginidade leiloada entre os ricos frequentadores do bordel onde também trabalha Anna (Vera Fischer), a amante do governador de São Paulo. Tamara, então, conhece, seduz e molesta o garoto Hugo (Marcelo Ribeiro que, há uns 4 anos, se aproveitando da fama infantil, deu entrevistas, lançou um livro e fez um filme realmente pornô). A Rainha dos Baixinhos foge da lembrança do filme como o diabo foge da cruz, chegando a entrar com uma liminar judicial, recolhendo fitas e cópias. Em vão. O filme foi lançado em DVD nos Estados Unidos em 2005, podendo ser adquirido em sites estrangeiros por importação. Ainda por cima, o Google (santo Google...) divulgou-o na íntegra no Youtube, dividido em cinco partes. É, Xuxa... teu passado te condena.


Fuscão Preto (1983)

Fecha nossa lista esse exemplo exemplar do início dos anos 80. Baseado na música homônima de Atílio Versuti e Jeca Mineiro, contou também com a participação de Xuxa Meneguel (ela de novo). A loira é Diana, uma patricinha que começa a ser perseguida por um Fusca (naquela vibe "Christine, o Carro Asssassino). Em vez de sentir medo, ela passa a ficar excitada com o veículo, ou seu motorista. E hoje posa de boa moça. Usando as palavras dela própria, "aham, Xuxa, senta lá".



Gostaram da lista? Se seu favorito faltou aí, diga qual ele é. Abraços!


OBS.: Os vídeos referentes a dois não foram postados graças a um problema técnico do blog. Mas no Youtube tem de todos. :D

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Cinemar, (de)compor, escreviver: calidoscópios juvenis em perspectiva

Leituras, leituras... a sina de um jovem e recém-graduado historiador em períodos de férias, no intermezzo entre dois momentos cruciais de sua vida. Mudanças que se apresentam, e que se mostram em vias de concretizar, mas tudo a seu tempo. Enquanto isso, só resta esperar. E há formas melhores de esperar do que acompanhado de boas leituras? Pois é. E poucas leituras reuniriam mais os gostos do blogueiro que ora vos fala do que "História, Cinema e outras imagens juvenis", uma compilação de artigos reunidos pelo Prof. Dr. Edwar Castelo Branco, líder do grupo de pesquisa "História, Cultura e Subjetividade" no CNPq.

O livro reúne o resultado de pesquisas que versam sobre os mais diversos temas, que convergem nos interesses da juventude brasileira em diversas épocas, em especial nos anos 60/70. Abrange textos referentes à produção cinematográfica em super-8 no Piauí na década de 1960, bem como as temáticas ligadas a tais filmes. O experimentalismo marginal e sua relação conflituosa com os modelos comercialmente padronizados, bem como suas divergências com o chamado Cinema Novo e seus representantes. Fariam parte de uma mesma estética cinematográfica ou guardariam diferenças suficientes para sua segregação?

A juventude dos anos 60 e 70, dividida entre os pertencentes à sociedade-padrão aceitável, os panfletários marxistas e os anarco-marginais, foge aos estereótipos porventura construídos para ela. É possível encontrar nas letras pernambucanas de Jomard Muniz de Brito uma multiplicidade de estéticas, bem como uma busca constante por uma "revolição" cultural, fundamentada em uma desconstrução dos "monstros sangrados" da arte e da política brasileira.

Se em 1968 as palavras se levantavam em protestos por parte dos estudantes da UNE, o desbunde era resultado de um processo sócio-histórico de transformação cultural do país. Teresina entrava em um circuito cultural que, no fim do século, ajudaria a configurar tal cenário. O cinema chegava, visto por muitos intelectuais da época como uma "invenção do diabo", trazendo novos costumes, maneiras de ver, vestir, amar as pessoas, sentir o mundo ao redor. Os escritos de Higino Cunha, Elias Martins e Clodoaldo Freitas divergiam quanto às contribuições da sétima arte à formação cotidiana teresinense.

A contracultura se apresenta em imagens, fotografias, conceitos e músicas. A arte musical e o surrealismo no rock de Raul Seixas deixa transparecer o esoterismo presente em sua filosofia hippie, a ideia de liberdade de atitudes, ao mesmo tempo em que, contraditoriamente, se mostrava moralista em termos sexuais.

Uma amálgama de identidades se construiu em torno das juventudes de todas as épocas. Discursos dissonantes e aventuras culturais, desafiando as visões pragmáticas do homem, este ser complexo, em seu momento biológico mais particular. Um conjunto de imagens que se misturam numa sopa com pedaços de monturos, o vômito dos dogmas, a merda jogada sobre os monumentos. Uma poção mágica desafiadora, que traz a dúvida maravilhosa e revela os segredos do incerto.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O "Natal das Crianças" na Paróquia (ou Seria Cômico se Não Fosse Trágico)

Pode parecer um tanto elitista o que vou escrever aqui, mas não tem nada mais engraçado do que assistir auditivamente um evento para crianças. Sim, auditivamente. Porque se você estiver no lugar ficará angustiado com a bagunça generalizada e irá querer, você, fugir para as colinas. Não, melhor é ficar num lugar neutro, mas onde se possa ouvir com clareza, e ficar ali, imaginando a que ponto chega a civilização. Enfim.

Vivo num "triângulo religioso", entre duas igrejas evangélicas e o salão paroquial da Igreja Matriz católica da cidade. Sempre, ali no salão paroquial, nesses período de Páscoa, Dia das Crianças, Natal (datas onde crianças ganham presentes e/ou se empanturram) rola aquela festividade para as crianças carentes. Antes que me acusem de insensível em relação à realidade da infância brasileira, a miséria, etc, me apresso em dizer que o fato de serem crianças carentes ali é um mero detalhe. Crianças, de uma maneira geral, agem da mesma forma, seja saída da favela, seja dos Jardins, em São Paulo. Exceções são raras.

De longe (para ser mais específico, da sacada da minha casa), deitado numa rede, é possível escutar bem o que se passa através das reações da animadora do evento (em geral uma moça desapegada dos bens materiais, recheada de paciência e benevolência cristã, e que dali sairá para uma sessão de análise). Acompanhe o passo a passo. Em geral, acontece exatamente nesta sequência:

1º momento - A recepção acolhedora
"Benvindos, queridos! Sintam-se todos à vontade! Essa festa foi feita para vocês! Divirtam-se!"

2º momento - As brincadeiras
"Gente, vamos se organizar (se organizar?! Correção gramatical pra quê, né?) pras brincadeiras. (t) Hei, queridinho, pode levantar daí, sim? Gente, todo mundo aqui bem juntinho, e dêem aquele grito de oba! (Alguns gritam oba, outros gritam coisas impróprias pra esse blog) Cuidado com essa boca, queridinho! Deus castiga... (risinho falso da apresentadora)"

3º momento - O lanche está servido!
"Gente, vamos lá que o lanche está servido! Muita coisa gostosa, feito com todo carinho!"

4º momento - A chegada até o lanche
"Crianças, não precisam avançar. Tem pra todo mundo! (outro risinho falso) Vamos fazer uma filinha?"

5º momento - O fracasso da fila
"Gente vamos lá... gente vamos/ Eu já disse que não precisa avançar! (cara feia) Gente, pelo amor de Deus, educação, EDUCAÇÃO!!!"

6º momento - Os hunos chegaram?
"Hei, sai de cima dessa mesa! Alguém tira aquele moleque de cima do bolo! Hei, menina, cuidado pra não se afogar no suco! Cuidado, não come todos os pastéis, seu porco!"

7º momento - O fundo do poço
"Gente, ele tá vomitando! AQUELE MOLEQUE PORCALHÃO VOMITOU EM CIMA DO BOLO!"

8º momento - Eu me rendo!
"Socorro! Fujam pras colinas! O prédio vai cair! Estão comendo as paredes! Mei dei!"

Enfim... deu pra entender porque eu prefiro escutar de longe?

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

BBB 11: perspectivas possíveis



É sabido que comentar a edição em voga do Big Brother Brasil é uma de minhas tarefas prediletas (em período de férias então, com as atividades reduzidas a um terço do normal, é um passatempo quase viciante). A observação da primeira semana da 11ª temporada do reality, como não podia deixar de ser, rende um comentário aqui neste espaço de divagações do blogueiro que ora vos fala. Pois bem. Vamos nessa.

O BBB 11 tem duas grandes possibilidades: estourar a boca do balão, visto que tem 11 semanas pela frente e 16 participantes com todo um potencial a explorar, ou afundar no marasmo semelhante à politicamente correta e modorrenta 6ª edição. Caminhos e descaminhos à qual todo reality está sujeito em momento semelhante, mas a situação na qual se encontra o programa neste momento mostra que há, sim, motivos para se preocupar.

A final da 6ª edição do Big Brother Brasil, em 2006, levantou um sinal amarelo sobre os rumos que o programa tomaria a partir de então. Muito embora consolidasse o fenômeno de audiência, e se tornasse, finalmente, a menina dos olhos de qualquer anunciante, a atrção evidenciava, também, uma característica que incomodava seus diretores: a tendência do povo brasileiro a beneficiar o desfavorecido, eliminar o polêmico e dar o prêmio ao bonzinho (e, por vezes bobinho) que, por ter menos, merecia mais a bolada que os outros. Assim venceram o BBB personalidades como Kléber Bambam, Cida e Mara. O que fazer?

Veio a 7ª edição, inaugurando um expediente novo: chega de baixa renda! O BBB, como show, precisa de gente bonita, sarada e interessante. Gente desinibida, que esteja a fim de mostrar e fazer o que for preciso para chamar a atenção e vencer. Ponto positivo com a vitória de Diego Alemão em 2007, com as polêmicas do Dr. Marcelo em 2008, com a superexposição do corpo da mulher-picanha Priscila em 2009 (que bateu na trave na final mais apertada do programa), e na consagração do mais-que-polêmico Marcelo Dourado no ano passado. Aplausos para Boninho, o diretor que quer ver a coisa tremer, e que acha que vale tudo em nome do Ibope.

Particularmente, concordo com Boninho. O show deve prezar por gente que interessa (e nisso, talvez entre aqui o conceito meio elitizado de Goretti, a personagem de Regiane Alves em Tempos Modernos). E dá-lhe boazudas turbinadas na piscina, saradões malhando na academia, barraqueiras e barraqueiros de plantão, prontos para explorar até as últimas consequências seu ímpeto de causar. Conteúdo, sim, e polêmico: BBB bom é aquele que sabe que quanto mais se expôr, mais estará dando Ibope e grana ao programa. E mais aumenta as suas chances de vencer, certo?

Aí entra o ponto neuvrágico da questão. Nem sempre o participante ideal para a direção do programa converge com aquele que o público deseja levar até o prêmio milionário. A edição, claro, é feita para favorecer aquele que mais se assemelhe aos objetivos da turma do Boninho, mas já ficou evidente que as pessoas pensam que as próprias cabeças, e fazem escolhas que, muitas vezes, divergem dos objetivos da direção de cúpula. Não fosse por isso, Gyselle Soares ou Marcelo Arantes teria vencido a edição de 2008, sendo os personagens em maior evidência; Ana Carolina ou Naiá teria sido a grande campeã de 2009. O protagonismo sugerido pelos diretores de câmera e editores do programa ajudam a construir o campeão, mas estão longe de ser o único elemento neste processo.

Anteontem, a transexual Ariadna foi a primeira eliminada do Big Brother Brasil 11, levando, creio eu, a reuniões de cúpula ininterruptas na sala de J. B. de Oliveira, onde este deve, com grandes possibilidades de eu estar certo, esmurrado a mesa algumas vezes. Para piorar, o Ibope do programa tem despencado desde sua estreia, deixando claro à equipe produtora que os telespectadores estão insatisfeitos com a escalação feita. "O que tem acontecido com o público?", deve, agora, se perguntar Boninho. Talvez, o tabu social do transexualismo ainda seja mais forte para a sociedade do que aparenta. Ou isso, ou as pessoas não gostaram do fato de Ariadna ter se apresentado reticente em relação à sua condição, causando uma impressão incômoda de falta de ética por sua parte.

Diferente de muitas opiniões que tenho visto por aí expressas, não acho que a escalação do BBB 11 tenha sido ruim. Pelo contrário: a carpintaria de Boninho tem estado cada dia mais apurada para selecionar quem tem potencial a ser explorado. Falo em relação a muitos: aos "tricotantes" Daniel e Lucival, à dançarina Jaqueline, ao baiano hiperativo Diogo, além de Michelly (cuja infantilidade, bem como a Ana do BBB 9 pode ser uma característica que conquiste as pessoas), Rodrigão, Rodrigo e Talula. O que falta, como muito bem colocou Pedro Bial em seu discurso de eliminação, é a coragem e a honestida em evidenciar isso.

Seria uma baita hipocrisia dos brothers em questão quererem se passar por puritanos. Além de Ariadna (que, apesar de esconder muito, deixou claro que de santa não tinha nada), os outros também tiveram uma vida pregressa bem, digamos, movimentada. Maria e Diana já posaram da forma que vieram ao mundo (Diana com máscara de Darth Vader. Fetiches, fetiches!), Rodrigo já expôs os seus "pertences" em revistas do ramo; Talula já foi Miss Chocolate e pousou com pouca roupa. Quer dizer... quem ali é inocente? Foram escolhidos justamente por seus perfis audaciosos, e o que menos têm de fazer ali é posar de certinhos.

Nesse momento, Talula e Rodrigão apontam nas pesquisas como favoritos. Curiosamente, são eles os com perfil de bons moços: bonitos, contidos e aparentemente éticos. Diana segue por perto, considerada por muitos uma participante forte, por sua atitude. Diogo também, embora, para muitos, sua graça vai acabar rápido. Talvez, Paula (a Jabulani) possa despontar como uma grande jogadora, justamente por deixar à mostra suas opiniões, e não ter medo de mostrar quem é.

Independente de quem ganhe no final, o que queremos é uma boa atração. O povo quer gente que jogue com o coração (quem puder, com o útero!), e não um poker face. Quer seres humanos, e não robôs feitos para jogar. Quer a força e a fragilidade postos numa balança, quer o carisma à flor da pele e a emoção de uma novela da vida real. É importante que os participantes do programa saibam por qual motivo estão ali. E que a direção saiba criar situações para que a novela não caia numa grande e desconfortável barriga.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Enfim, o fim de Passione


Ontem, assistimos ao último capítulo de Passione. Diferente de outras tramas policiais de Sílvio de Abreu, como A Próxima Vítima ou Belíssima, o suspense sobre os assassinatos não causou o mesmo frissom. Sim, as revistas de fofoca comentaram o mistério. Sim, a novela marcou 52 pontos em seu fim, o que, pros dias de hoje, equivale a uma audiência de 74 pontos, por exemplo, segundo os critérios de medição de 10 anos atrás, quando foi transmitido o sucesso O Clone no horário nobre. Mas o sentimento do público (falo de mim e de vários com os quais já conversei) em relação a Passione é que faltou... não sei bem o quê. Começo esse texto com uma opinião ainda não construída sobre a novela, e espero chegar a alguma resposta em seu fim.

Passione começou com muita expectativa do público. Terminava Viver a Vida, a novela que conseguiu diversos feitos, dentre eles afujentar as donas de casa da frente da TV às 21h e colocar um enorme e incômodo "senão" na obra até então elogiadíssima de Manoel Carlos. Queríamos uma novela das oito (no caso, agora institucionalmente, das nove) que acontecesse: um novelão cheio de entrechos cômicos, dramáticos e mistérios, não a modorrenta história que se resumia aos dramas da moça tetraplégica. E essa foi a proposta de Sílvio de Abreu ao apresentar a história de Bete Gouveia, na busca do filho italiano Totó, atrapalhada pelos golpistas Clara e Fred. Enfim, todos os elementos para prender a atenção de dez entre dez noveleiros.

A estreia da novela mostrou tudo isso. Antes mesmo do primeiro intervalo comercial, morre Eugênio Gouveia (Mauro Mendonça), não sem antes revelar a Bete (Fernanda Montenegro) que seu filho, que ela imaginava ter nascido morto há cinquenta anos, estava vivo, na Itália. O filho, Totó (Tony Ramos, alvo das brincadeiras sobre o apelido canino de seu personagem). Cada final de capítulo, nos primeiros dois meses, terminava não só com um, mas três ganchos, enquanto muitos de Viver a Vida terminaram naquela vibe de "me passa o sal". Todos babaram com a novela, extremamente aplaudida pela crítica, especializada ou não.

Mas o tempo passou, e os defeitos começaram a aparecer. Não em relação a Clara, uma construção excelente de Mariana Ximenes, provavelmente o papel de sua vida. Tampouco Tony Ramos que mostrou mais uma vez o grande profissional e ser humano que é, dedicando-se a cada trabalho com a mesma verve que dedicou ao primeiro. Mas, realmente, ouveram falhas crassas. A personagem Diana, de Carolina Dieckmann, não convenceu como mocinha, tampouco atraiu o público seu triângulo amoroso com Mauro (Rodrigo Lombardi) e Gérson (Marcello Antony). Não dá pra mentir, dizendo que a personagem deixou saudades após morrer de parto. Diana foi tarde, realmente. Em parte, talvez, pela atriz, mas acredito ser uma culpa menor. O texto e a construção da personagem foram a grande pisada de bola. Diana foi, realmente, um equívoco.

Fernanda Montenegro, mesmo ela, parecia interpretar sua Bete Gouveia no piloto-automático. Não era ruim (é quase um sacrilégio criticar Fernanda Montenegro), mas não tinha metade da emoção de trabalhos anteriores. Pareceu bastante com aquela interpretação que a pessoa faz por amizade ao autor, à diretora, ao elenco, enfim. Nada que envolva emoção própria, doação, entrada de cabeça no papel, etc. Posso estar sendo injusto, mas foi essa a minha percepção. Caso semelhante se observou em Francisco Cuoco, e um Olavo da Silva com aquele riso frouxo que o ator tem teimado em demonstrar em todos os seus últimos trabalhos. Bruno Gagliasso, vindo do ótimo (e sequelado) Tarso de Caminho das Índias, também forçou a barra com Berilo, tanto na safadeza do italianinho quanto no sotaque que estava, decididamente, ruim. E Reynaldo Giannecchini não conseguiu atrair para seu primeiro vilão, Fred, um terço da popularidade do cômico Pascoal, excelentemente interpretado por ele na última parceria com Sílvio de Abreu. Nesse caso, mais uma vez, não culpo o ator. Vilões masculinos não costumam ter grande repercussão.

Claro que tenho, também, quem elogiar. Irene Ravache, depois de Mariana Ximenes, foi o grande nome da novela. Sua Clô foi uma inesquecível e grata surpresa, com um espalhafate bem construído e apaixonante. Realmente, é uma forte candidata ao prêmio de Atriz Coadjuvante do Ano de 2010 (numa séria disputa com a Jaqueline Maldonado de Cláudia Raia, em Ti Ti Ti). Gabriela Duarte conseguiu, finalmente, livrar-se do carma de suas personagens boazinhas e politicamente corretas, e deu vida a uma Jéssica com muito fogo debaixo da camisola. Mais por ela que por ele, rendeu bons momentos na relação caliente com Berilo. No campo da terceira idade, merecem meus sinceros aplausos Leonardo Villar, Elias Gleizer (numa maré de bons personagens), Aracy Balabanian e Emiliano Queiroz. Mas aplaudo de pé mesmo é Cleyde Yáconis, e sua excelente dona Brígida, a irritante e irritável sofra de Bete Gouveia, uma construção impecável, que mostra que bons atores permanecem bons mesmo com o avançar da idade.

A história de Passione se perdeu em seu meio. Confundiu o público com a sua teia extremamente incestuosa de poucos personagens. Necessariamente, alguém era primo de alguém, que era filho de alguém, que era sobrinho de alguém, que era irmão de alguém. Causou estranheza, afastou pessoas, que cansaram da novela, mudaram de canal pra TV paga, ou vieram para a Internet.

No fim das contas, Passione pegou mesmo no último mês, quando os entrechos finais conseguiram, finalmente, dar altos índices para o horário. Mas já era tarde, e a novela fechou com uma audiência média de 35,1 pontos, assumindo o posto de pior média do horário, ocupado anteriormente por Viver a Vida. Um posto, na minha opinião, injusto: apesar dos pesares, Passione teve muito mais história e uma condução mais competente (o que, convenhamos, não é grande esforço).

A resolução mistério final veio confirmar a falta de motivação, e mesmo de criatividade, de chocar o público. Com a exceção do mistério central de A Favorita, tivemos, em geral, assassinatos misteriosos cometidos pelo próprio vilão da novela, o que não poderia ser mais frustrante para os fãs do gênero policial. Clara matou Eugênio a mando de Saulo, e Saulo por vingança, bem como Laura matou Lineu Vasconcelos em Celebridade, Bia Falcão foi a responsável por prejudicar Júlia em Belíssima e Olavo Novaes matou Taís em Paraíso Tropical. Preferia, sim, que fosse alguém inusitado: quem sabe, dona Brígida, Mimi ou mesmo Bete Gouveia?

Passione, mesmo com todos os problemas, passa o horário em alta para sua sucessora, Insensato Coração. A próxima novela das nove (e a primeira que vem com essa alcunha) começa com pouca especulação e, talvez, uma história bem balizada. Se Passione foi uma boa história contada de forma equivocada, esperamos sinceramente quem o mesmo não aconteça com a trama de Gilberto Braga e Ricardo Linhares. Se o assassinato do vilão Léo (Gabriel Braga Nunes) está previsto na novela, faço votos, desde já, para que Norma (Glória Pires) não seja assassina e, diferente do que tem feito ultimamente seus colegas de profissão, seus condutores me deixe boquiaberto.