Há quanto tempo que eu não fazia uma lista. Já estava com saudades de ser criticado pelas minhas escolhas... rsrsrs. Brincadeira. Sei que os leitores desse blog são de uma educação e de uma compreensão sem igual, e que sempre compreendem que se trata de uma memória afetiva, chegando, por vezes (olha só!), a concordar com meu gosto.
Hoje resolvi falar de romantismo à flor da pele. Afinal, mesmo quem não viveu, o que é o meu caso, tem saudade dos anos 80. Não só pelas suas roupas profundamentes coloridas e pelo florescente liberalismo pós-moderno que se consolidava, mas por um novo postar-se perante a sociedade. Nada de década perdida. Produziu-se muita cultura ali. E uma das mais marcantes era um pop rock, romântico e extremamente instrumentalizado. Bailinhos mundo afora, até hoje, tocam Roxette, Air Supply e Phill Collins.
Por isso, trouxe aqui as músicas que me aguçam os sentidos. Que causam em mim um festival sinestésico, do qual não consigo sair antes do último acorde. Que me deixam extático. Ei-las:
The Power of Love (Jennifer Rush)
Quem nunca cantou "O Amor e o Poder" pelo menos uma vez na vida que atire a primeira pedra. A versão brazuca, cantada por Rosana, que embalou as emoções da novela Mandala, tiveram como referência essa canção de Jennifer Rush, que prezava pelo clima transcendente que, em seguida, marcou a versão da novela.
Take My Breath Way (Berlin)
O tema inesquecível do filme Top Gun - Ases Indomáveis deu uma impressionante visibilidade ao Berlin, e a canção tornou-se um ícone nas paradas de sucesso durante e depois do filme. Todas as trilhas sonoras de vencedores do Oscar têm-na como faixa obrigatória.
Matter of Feelings (Duran Duran)
Muito antes dos Backstreet Boys, as boy-bands atraíam os gritinhos de adolescentes enlouquecidas. E, claro, não dá pra falar delas sem tocar no nome do Duran Duran. "Matter of Feelings" também vigorou entre as prediletas nas baladinhas. As meninas queriam agarrá-los, rasgá-los e beijá-los. Os meninos queriam sê-los, embora não admitissem.
Against All Odds (Phill Collins)
Não dá pra falar de baladas dos 80 sem citar Phill Collins. O rei do romantismo oitentista figura aqui com um de seus clássicos. Aliás, difícil destacar uma dele que não seja um clássico, portanto a escolha não foi das mais fáceis.
Endless Love (Lionel Ritchie & Diana Ross)
O tema de Amor sem Fim é uma das mais lembradas do consagrado Lionel Ritchie. A suavidade de sua voz, aliada num dueto belíssimo com Diana Ross ganhou mais e mais versões mundo afora.
Heaven (Bryan Adams)
Entre minhas favoritas está o tema de Babi na novela A Gata Comeu. Enquanto a patricinha ficava às voltas com seu amor pelo falso cego Zé Mário, o público se deleitava nos acordes de Heaven.
It Must Have Been Love (Roxette)
Dificílimo pra mim ser imparcial quando o assunto é esse grupo sueco. Mais ainda, quando o assunto é Marie Fredriksson, a sueca que assume os vocais. "It Must Have Been Love" ainda hoje é tocada à exaustão em festas Ploc, e figura sempre em discos do tipo Good Times.
Listen to Your Heart (Roxette)
Diferente da maioria, que curte mais a música anterior, minha predileta do Roxette é aquela que embalou várias cenas da novela O Sexo dos Anjos. Seu tom transcendente, ainda maior, tem cara de romances maiores que a vida. E nós lá, escutando.
Making Love Out Of Nothing At All (Air Supply)
Enfim, o hour concours dessa lista. Para muitos, um atentado aos diabéticos. Para mim, a memória de um belo momento de minha vida: a primeira paixão adolescente. Tinha um CD pirarinha na minha casa, da qual esta era a segunda faixa. O disco furou de tanto ser escutado. Uma música com um clímax perfeito, instrumentalizado à exaustão, pronto para embalar um jovem coração apaixonado.
Pra você, o que faltou na lista. Comente e opine! Abração!
sexta-feira, 22 de abril de 2011
quinta-feira, 14 de abril de 2011
São tantas emoções: a telenovela como expressão da felicidade

Não é de hoje que tenho revisto meus conceitos sobre novelas. Pra falar a verdade, essa reconceituação é um processo contínuo, embora tenha se agudizado de uns tempos pra cá, desde que resolvi começar a falar abertamente sobre o assunto através desse veículo de comunicação. Afinal, o que é possível expressar sobre a atual situação da teledramaturgia? Apenas lamentar o marasmo, dizer que não se produz nada de novo, que a TV se tornou um mausoléu de estilos cristalizados? É pouco. Já passei muito tempo fazendo isso, e acho que perdi momentos preciosos de minha tenra juventude, em vez de, humildemente, propor possibilidades de revisão da teledramaturgia. Nada de novo, apenas um convite a voltar a olhar para a telenovela como já se olhou no passado e - sem querer ser anacrônico - rediscutir o grande valor que permeou o folhetim desde seu surgimento que era o de... transmitir emoções. Pois bem.
Muito se tem falado em técnica, em estilos, em fluidez nos diálogos, em dinamismo nas cenas. Muito se tem observado na expressividade dos atores, no figurino escolhido, no tom de voz usado para expressar-se nessa ou naquela cena. Nenhum pecado. De fato, o bom analista é aquele que vê a novela em seu todo, mas discutindo os detalhes. O grande problema é que nós (e me incluo nesse bolo), muitas vezes, achamos que analisar bem é criticar, apontar os defeitos, por mínimos que eles sejam, esquecendo-nos do mais importante que é esse TODO que constitui a telenovela, e no qual ator, autor e diretor pensam na hora de lançar o produto.
"Ah, mas esse olhar vai me recomparar ao público médio (ou ao sujeito ordinário?)", como se nisso habitasse o pior dos males para quem gosta de ver dramaturgia. Antes de qualquer outra coisa, meus queridos, fomos público médio, e gostamos muito de ser. E, acho eu, para sermos mais do que isso, temos que retornar, pelo menos um pouquinho, às emoções primárias vividas por esse público e, só a partir delas, fazermos nossas considerações. Ou isso, ou corremos o seríssimo risco de nos transformamos naqueles chatos, hieráticos, quadrados e saudosistas críticos de TV, que emos com tão maus olhos.
Mas, o que é fazer novela, então? Ou melhor, o que é fazer uma boa novela? Isso me inquietou por muito tempo. Justamente quando comecei a ver esse produto com um olhar mais apurado, passei a refletir o que constituia uma boa novela. E eis a surpresa: a resposta foi um retorno à mesmíssima visão que tinha quando assisti atrações como Olho no Olho, Cara & Coroa, Explode Coração, História de Amor ou O Clone: novela boa é aquela que me deixa feliz de ver.
O texto é tatibitate, e daí? A protagonista é ex-BBB, algum problema? As cenas duram mais de cinco minutos, e eu com isso? Não sou obrigado a virar um refém da técnica e, pior do que isso, da crítica. Da mesma forma que acho que o grande problema atuais é que elas se tornaram reféns de uma burocracia televisiva. Os autores e diretores se sentem obrigados a serem dinâmicos, a valorizarem a ação de maneira exaustiva, a escrever em escala industrial, a ter diversos pudores em nome da audiência, sem notar que são justamente tais elementos que mais afastam nosso público.
Novela boa é novela feita com gosto. É aquela que o autor escreve dando uma banana pra quem o chama de fantasioso, delirante. "Eu quero inovar, escrever uma mocinha lésbica, um mocinho obeso, uma vilã de 6 meses de vida". Mas e a audiência, e o povão? Azar! Ou então: "Eu prefiro escrever um folhetim onde a mocinha é abandonada no altar, depois descobre que tem uma herança milionária, fica rica, dança numa boate, se vinga do inimigo e depois desvenda um assassinato". Mas e a crítica, que vai me chamar de folhetinesco e sem-vergonha? Que se dane!
As últimas novelas pelas quais realmente me apaixonei foram feitas com amor, sem ligar pro que muita gente diria. E, coincidentemente, foram sucessos de Ibope. Glória Perez fez ouvido de mercador de camelos quando geral dizia que Jade viajava trocentas vezes pro Brasil em O Clone. Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari não ligaram pra quem dizia que estavam abusando das metalinguagens e da canastrice em Ti-Ti-Ti: investiram com gosto. É esse ato de coragem, é esse fazer da arte uma grande farra, que acho que faz falta em muitos trabalhos, e que defendo como a boa dramaturgia.
Acredito, sim, que as duas coisas são perfeitamente associáveis, mas se for obrigado a escolher entre ser partidário da técnica ou ser partidário da fantasia, fico com a segunda, sem culpa. Sei que posso ser achincalhado por essa opinião, mas acho que novela boa é aquela em que você dá asas à imaginação, seja lá o que ela lhe mande fazer. Você é louco, costuma ser chamado de esquizofrênico, cria estórias fantasiosas numa cabeça sem-noção? Largue as armas, meu irmão, e venha fazer novela. Tipos como você são necessários, e estão em falta.
Pronto, falei. Agora, que venham as pedradas.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Eu, um contrasenso acadêmico
Cada dia que passa me faz olhar ainda mais pra mim mesmo. E isso é mais estranho do que parece. Talvez seja a idade chegando, e essa adolescência tardia e mal-realizada se transformando numa vida adulta ainda tão imatura. Mas eu já superei essa fase de incertezas quanto ao meu próprio perfil psicológico-comportamental: me assumi como um prenúncio do anti-social, apesar da necessidade de estar próximo de gente; como um "homem de gelo", apesar da necessidade de abraços constantes; como um racional, apesar desse romantismo latente. Enfim, me defini como um contrasenso.
Essas reflexões têm ganho projeção maior no ambiente acadêmico, onde tenho vivido um momento profundamente particular. Estar no Mestrado é um sonho que eu alcancei. Me refazer nele a cada dia é um desafio que me foi colocado. A cada dia, seja de aula, seja da convivência com os colegas - nunca imaginei que seria tão significativa - me vejo uma pessoa nova. Não na minha essência: continuo o mesmo do parágrafo anterior, só que diferente. Deu pra entender? Não? Tá, deixa pra lá. Prossigamos.
Ontem foi um dia desses, de desconstrução do Fábio de tantos anos, e de reconstrução de um outro, que nem ele mesmo conhecia. Ontem eu levei um tapa na cara. Um tapa de luva, tão leve, mas tão leve, que continua doendo até agora. Um tapa que me fez ir dormir sentindo-o. Sabe por quê? Por que me vi ante os meus preconceitos, e senti vergonha de mim mesmo.
Eu, que sempre estufei o peito para me dizer um "filho da História Cultural". E não deixei de ser. Mas, ao falar isso, empostava a voz, inseria nele uma empáfia voluntária, um quê superior. Sabe o "eu sou, vocês não são"? Pois é. Eu, que ironizei com o mundo, com o que lia, com o que via ou que ouvia em contrário. Eu, que me propunha alguém de mente aberta, um catalisador de ideias, me mostrava o mais inflexível dos metódicos. Mea culpa.
Ante o Certeau, o Burke, a Pesavento, o Nora, eu esquecia de tanta gente... Do Hobsbawn, que li com tanta avidez em suas reflexões sobre a Revolução Francesa; do Peregalli, e suas construções sobre o modo de produção tributário; e, por que não, do Ranke, que me ensinou o quanto a organização é necessária no fazer historiográfico. Perdão.
Perdoem esse cara, que se achava tão pós-moderno, e se mostrava tão positivista. Perdoem esse poço de contradições. Perdoem quem criticou o reducionismo e determinou o mundo. Perdoem quem se negou a ler aquele que disse que a história acabou, por puro preconceito. E também àquele que renegou o resto da Escola de Frankfurt por ter medo de trazer a contradição pro seu trabalho. Eu errei. E seu que talvez não mereça o perdão. Mas eu juro que vou me esforçar.
quarta-feira, 30 de março de 2011
A única Maria do mundo
Ontem se deu a final do BBB mais miado de toda a história. O programa que, como sempre, iniciou-se sob expectativas e especulações em torno de seu novo elenco, decepcionou na escalação. Não faltaram tentativas da direção de alavancar a coisa, mas todas foram em vão: o BBB11 terminou com audiência medíocre, assim como seus participantes. Em meio ao marasmo, quais são as análises possíveis? Porque a edição não vingou? Quais foram os erros de Boninho e cia? Tudo isso, todas as possíveis considerações acerca do programa, servem, também, para refletir sobre sua final, e sobre a construção de sua campeã.
Já não é de hoje que uma das principais estratégias de Boninho na formação do time que entra na casa mais vigiada do Brasil tem seguido um critério-mor: escalar os mais bonitos e polêmicos. Essa tem sido uma máxima do programa, em especial da 9ª edição para cá. Queria-se um Big Brother mais jogado, mais estratégico, menos emotivo que os outros. Conseguiu-se? Sim, em termos. Vencedores como Max Porto e Marcelo Dourado destacaram-se como grandes jogadores e estrategistas.
Particularmente, como grande fã que sou do reality, comemorei quando a nova política da direção passou a ser essa. Já estava cansado de um Big Brother vencido por desmiolados, bam-bam-bans e superpobrinhos. Que vença o melhor jogador, pensei, assim como nas edições americana, alemã, etc. Não torci por Max, torci por Dourado e seu time... mas, entre erros e acertos de palpites, reconhecia méritos nesses BBBs em que se valorizava a inteligência em vez do carisma.
E, como que para me dar um sonoro tabefe, vem a 11ª edição, e me faz discordar de mim mesmo. A edição, mais do que nunca, privilegiava a escalação de participantes, como diria Maurício Stycer, "com os dois pés na baixaria": mais da metade ou tinha pousado sem roupa ou com pouquíssima roupa - isso sem contar os fetiches com máscaras de Darth Vader e, também, vidas pregressas, ligadas a prostituição. E, nos primeiros dias do programa, a grande estrela foi Ariadna, a "fábula do século XXI", transexual, que levantou grande discussão sobre o assunto em todas as mídias. A história de Ariadna parecia ser suficiente para garantir o sucesso do programa - não fosse o fato de que o público a eliminaria no primeiro paredão. Não conformado, o Big Boss criou uma estratégia para tentar reinfiltrá-la na casa, criando a nova Casa de Vidro. Mas não foi suficiente, e Ariadna foi preterida a Maurício. Fazer o quê? Vida, essa...
Ariadna saiu, e a casa caiu no mais completo marasmo. A história que norteava a edição, e que fora a aposta de todas as fichas dos diretores, babou. Ficaríamos com a metralhadora verborrágica de Diogo, a apatia de Rodrigão, os surtos sem-noção de Michelly ("Eu tô de shorts!"), além de Cristiano se esfregando no casting feminino da casa, todo trabalhado no doce de leite. Não contente, e querendo consertar o Boeing em pleno voo, Boninho adapta o expediente americano do Entra-e-Sai, fazendo um paredão em que rodam dois e entram dois, ainda confinados: dessa maneira, entram no programa a miss Adriana e o médico Wesley, com a missão claríssima de botar fogo no jogo.
De fato, Adriana e Wesley movimentam a casa. Adriana engrena um romance contraditório com Rodrigão, fala verdades na cara de algumas pessoas, e ganha um eleitorado forte, ao mesmo tempo em que seu jeito juvenil, e sua mendicância quanto ao amor do rapaz, criam rejeição tão ou mais forte quanto. Já Wesley ajuda a protagonizar uma das principais histórias da casa, que seria levada, enfim, à grande final: passar a cortejar Maria, recém-separada de Maurício, um dos últimos eliminados do programa. Eis que, quando o romance estava em vias de acontecer, MauMau volta da Casa de Vidro, causando um triângulo amoroso totalmente inusitado, e passando a ser vítima da perseguição implacável de uma dividida Maria.
Maria se contradiz, age sem pensar, fala o quer e ouve (muito) o que não quer. Bebe, faz bobagens, se arrepende, chora. Bebe novamente, corre atrás de MauMau, é dispensada por ele. No dia seguinte, tome crises de consciência e ressaca moral. Ressaca não maior que as das bebedeiras astronômicas do tricotante Daniel, que engrena o mais peculiar caso amoroso do programa: com uma palmerinha (what?).
A grande final privilegiou os participantes que, de alguma forma, causaram no programa. Foi resultado da escalação equivocada de Boninho que, ao privilegiar a polêmica, esqueceu dos protagonistas. Afinal, o que marcou o sucesso de edições do BBB como a 3ª, a 5ª e a 7ª? A criação de personagens carismáticos, que despertaram o amor do público. E nisso, chamo a mea culpa: eu, um dos maiores incentivadores desse novo BBB, clamo por um retorno a esse ponto ótimo perdido. O BBB que nos fez amar Manuela e Tyrso, Juliana Alves, Grazzi Massafera, Mariana Felício, Siri e Diego Alemão, Rafinha e Gyselle Soares. Antes o carisma, a construção do vencedor muito, mas muito antes do fim, do que a apatia que se observou esse ano.
Daniel, Maria e Wesley fizeram uma final que coroou o programa em sua mediocridade. O discurso de Bial, ao anunciar Maria como a grande campeã, ressaltou seu passado, e o fato de ter mexido com o imaginário não só masculino, mas também, e principalmente, com a opinião das mulheres sobre si mesmas. Particularmente, embora não torcesse de fato por nenhum dos finalistas, votei pela vitória de Maria por dois detalhes básicos. Primeiro porque, há muito, queria ver Bial anunciar uma VENCEDORA do programa, uma vez que as únicas mulheres que chegaram a esse posto foram Cida e Mara, e, né? Em segundo lugar porque, se formos garimpar os protagonismos, Maria foi a grande estrela do programa. Levou-o nas costas, centralizou sobre si a história. No BBB mais over da história, Maria foi, sim, a melhor.
quarta-feira, 23 de março de 2011
Perfumes, músicas e lugares de memória

"A recordação é o perfume da alma. É a parte mais delicada e mais suave do coração, que se desprende para abraçar outro coração e segui-lo por toda parte" (George Sand)
Perfume... fragância de lembranças. Extrato sensorial, sinestésico, de uma parcela de nossa vida, que volta à tona quando o sentimos novamente. Ah, e que lembranças, que lembranças nos trazem, que sensações nos despertam, novamente e, às vezes, mais fortes que o momento original.
Todas essas divagações são resultados da aula de ontem de História e Memória. Quando, ao discutirmos Jacy Seixas, em seus "Percursos de memória em terras de história", quando a relacionamos com teóricos das mais diversas áreas, como Halbwachs, Proust e Bergson, Paul Ricoeur, e, principalmente, quando a discussão estrapola o texto acadêmico e se configura em um passeio por nossos sentidos, percebemos que nossas memórias mantém-se presentes, vivas, em lugares específicos, sejam eles físicos ou não.
Perfumes... aqueles que nos trazem de volta lugares, momentos e, principalmente, pessoas. Aquele perfume inesquecível que ela usava, e que, usado por qualquer outra mulher, sempre será dela. Dela, e de mais ninguém. Ali, na minha memória, aquele odor será único. Unicamente dela. Aquele que, para sempre, me lembrará momentos na Praça Irmãos Dantas, naquele banco bem diante da Igreja de Nossa Senhora do Carmo (ou em qualquer outro), que me fará recordar, para sempre, aquele dia, em frente ao portão de sua casa, olhando as estrelas no céu. Que me obriga a rever, mentalmente, aqueles olhos de ressaca, olhos de Capitu, oblíqua, dissimulada, sempre escondendo muito mais do que mostrava...
Porque eu sei que é amor
Eu não peço nada em troca
Porque eu sei que é amor
Eu não peço nenhuma prova
Mesmo que você não esteja aqui
O amor está aqui, agora
Mesmo que você tenha que partir
O amor não há de ir embora.
Por que raios os Titãs me perseguem, em minhas lembranças?! Pô, sempre eles! E eles, sempre, e mais uma vez, me levam a lembrar. A lembrar dela. Já no fim do nosso romance, quando passeávamos pela mesma praça, quando sentávamos no mesmíssimo banco, quando conversávamos debaixo das mesmíssimas estrelas no céu. Enquanto a mãe dela ligava pro seu celular e a mandava entrar logo em casa. Naqueles dias, um romance que nasceu particular, nervoso, principalmente da minha parte, terminou, também, de maneira particular. Com um abraço, um carinho e, se eu não tivesse resistido em meus propósitos, um beijo, que o reiniciaria.
A memória que, nesse caso, transformou-se em relicário. Guardada numa caixinha, como passado, por vezes presentificado, traz saudade. O mais engraçado de tudo é que a saudade, nesse caso, termina sendo melhor que o momento - esse recheado de nervosismo, inexperiência, uma certa angústia.
Como saber de que forma sentimos, de que forma encaramos e como convivemos com nosso passado e nossas percepções?
Provavelmente, nunca saberemos.
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