* Antes que geral me chame de um plagiador sem vergonha, eu mesmo me acuso: este título já foi usado em uma revista da Mônica. Grato.
João Paulo colocou o ponto final. Terminara, enfim, seu livro! \o/ Gravou as 225 páginas no pendrive e saiu, empolgadíssimo. Agora era arranjar uma editora e publicar. "Meu primeiro livro de muitos!", pensou ele. João Paulo tinha 18 anos, tava no primeiro período da faculdade, mas sempre foi inteligente. Nunca foi de sair, adorava ler, e sempre gostou de escrever. Os pais apoiavam, e tal. Mas ele sempre foi mais obsessivo que qualquer um em casa. Era um intelectomaníaco.
Chegou pro pai. Era sábado, o pai não trabalhava hoje. Podia ler, nem que fosse um capítulo, e constatar sua genialidade. O pai olhou, na tela do PC.
- Hum... filho... que bom! [pai sem saber o que dizer] Mas assim, o livro fala de quê mesmo?
- Pai, é um romance! - dizia João Paulo, empolgado, querendo esconder o balde de água fria que acabara de levar.
- Hã... legal. Muito legal! Mas eu senti falta do mocinho. Cadê o mocinho?
- Pai, não tem mocinho. É um romance contemporâneo. Ou melhor, pós-moderno.
- Hãã... [pai sem saber MESMO o que dizer]
- Assim... eu tento desreferencializar a noção de sujeito. O mocinho está em todas as partes. Em determinados momentos ele é o carteiro, noutros é a prostituta, noutros é o cachorro... aqui, na terceira páginas do capítulo 3, é o poste. Não é o máximo?
O pai: "Ahhhhh... [não entendeu patavina] É, é o máximo sim! Olha, deixa aí que eu termino de ver depois, tá?"
Pai não entende nada de literatura...
Resolveu a mãe. A mãe era uma pessoa mais simples, mas menos ligada a esses clichês. O pai cresceu nas matinês, e achava que toda espécie de ficção se resumia nos caubóis italianos que adorava assistir. Parou e pensou... não, a mãe vivia vendo novela. Ia querer ver a superação da mocinha e as armações da vilã. Fora de cogitação.
Mãe não entende nada de literatura...
Lembrou do César, seu melhor amigo. Na verdade, o César era seu único amigo DE VERDADE. Aquele que compartilhava com ele do mesmo gosto por literatura, por cinema francês e por revista de mulher pelada, mas sem aquela apelação comercial da Playboy. Sacumé, né? O César sacava dessas coisas, tinha sensibilidade.
César abriu o arquivo no note e começou a ler. Adorou o título. Começou a ler o capítulo 1. Segundos e o César fala:
- Ô Jotapê, cê não acha que tá muito clichê, não?
- Cumequié?
- É! Cara, nesse trecho aqui a puta dá pro carteiro, e TÁ NA CARA que eles vão ficar juntos no fim. Tô mentindo?
João Paulo está com ódio de si mesmo, porque, sim, a puta vai terminar com o carteiro.
- Não, Cezão. Não tá.
- E o cachorro, aqui? Essa relação dele com o poste, eu achei uma metalinguagem meio fraca. E a metáfora da cidade como monstro já foi usada. A gente não leu o Leviatã?
- É...
- Cara, acho que dá pra mexer. Mas assim... a proposta tá legal. Tu só tem que ver melhor esses clichês aí. E tem coisa que tu pode ser acusado de plágio. Se liga.
O César entendia DEMAIS de literatura. Que merda!
João Paulo decidiu largar mão de ser escritor. E cineasta também, que era seu segundo gosto, depois que viu todos os filmes do Godard. Mas pensou melhor, depois que leu um romancezinho de banca de jornal que Edilene, a empregada, comprava, pra recortar a capa e colar num diário. Teve um insight. Voltou pro PC e começou a escrever um livro novo: a mocinha era uma dama da sociedade britânica, aprisionada num castelo pelo padrasto, mas tinha o mocinho, um pirata regenerado, que se apaixonara perdidamente pela sua imagem numa pintura...
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
BBB12: a Navilouca de George Orwell pronta pra zarpar de novo

Enfim, acabou o suspense. Depois de semanas de especulação, Boninho cansou de seu esporte favorito - causar expectativa - e, finalmente, divulgou a lista dos 12 participantes do Big Brother Brasil 12: a 12ª edição do reality show, que ocorre no ano de 2012, e tem 12 participantes. Um número cabalístico? Ou apenas uma coincidência? Pra mim, nem uma coisa nem outra. Os apenas 12 participantes da nova edição do BBB (após anos em que o número de brothers crescia em progressão quase geométrica) reflete uma tendência do marketing do programa esse ano: um retorno às origens.
Afinal, o que o BBB12 quer fazendo um retorno ao perfil de seus primeiros números? Primeiro, é um reflexo do desgaste que a pirotecnia causa em um formato. Você tem um programa que dá certo, aí, na edição seguinte, faz crescer a quantidade de gente, inventa um sem número de provas, de novas regras e de et céteras e... esquece o mais importante: GENTE INTERESSANTE.
Pelo jeito, Boninho quis fugir do scargot, e aptou pelo bom e velho feijão-com-arroz com um bife em cima - simplicidade que trás sustância. Em vez de estereótipos como o travesti, a transexual, o monge, entre outros, preferiu gente mais comum, do tipo que se vê na rua. Ok... a maioria parece ser de classe média, são rostinhos bonitos, já fizeram ensaios sensuais ou coisa do gênero. Mas é Big Brother, né? Gente bonita, falante e barraqueira são a alma do programa.
Na 12ª edição, temos ex-coelhinha da Playboy, uma belíssima lésbica, um professor de muay thay, uma arte-educadora com cara de pós-moderna, uma nordestina... e todos bonitos e, aparentemente, interessante. Se a estratégia foi não chocar o público com gente excessivamente polêmica, Boninho conseguiu. Só precisa provar que a turma que aí está não será apática, e demonstrará carisma na hora do "vamos ver". E, considerando a edição passada, onde todo mundo "veio pra causar", e deu no que deu, eu prefiro acreditar mais no grupo que aí está.
Bom... é impossível ver o BBB sem se lembrar dos velhos gladiadores romanos. É fato que veremos 12 pessoas se degladiarem psicologicamente em uma casa. Também vale lembrar da Stutisfera Navis, o navio onde eram jogados os loucos na Idade Média. E, por fim, de George Orwell e seu "1984", a inspiração intelectual do programa. Misture tudo isso com uma pitada de sensacionalismo barato, travestido de coisa elegante pelas câmeras globais, e teremos mais uma edição de um dos programas mais assistidos do país. Que pode não estar em seu momento mais criativo, mas, acredito eu, pode estar apostando em uma opção acertada.
Sinceridade? Eu não vou perder.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
As grande lições do caçador de pipas

Recentemente, relendo meus alfarrábios mentais, me veio à mente uma das histórias mais tocantes que já li/assisti. Por que pensei, tão repentinamente, em O Caçador de Pipas? Talvez por estar martelando em mim, tem alguns dias, a diferença tênue que existe entre as ideias de "fidelidade" e "lealdade", na amizade e nas relações em geral.
Antes de mais nada, cabe falar um pouco do livro do afegão-americano Khaled Housseini. É a história da relação de amizade entre o garoto rico Amir, e Hassan, seu melhor amigo, filho do criado de seu pai. Ao longo dos doze anos que se passaram em sua vida, até que a história começa, Amir e Hassan foram amigos. Cresceram juntos. O pai de Amir, o rico Baba, é, também, amigo de infância do pai de Hassan, Ali, e tem por ele e pelo filho uma consideração familiar, apesar de Ali ser um criado em sua casa.
Amir é campeão das diversas competições de empinadores de pipas que ocorrem no Afeganistão, e Hassan, seu fiel escudeiro, é o "caçador de pipas", que as encontra e as exibe como um troféu de seu amigo. Numa dessas competições, vencidas por Amir, Hassan, ao caçar sua pipa em um lugar ermo, é encontrado e violentado por Assef, um adolescente encrenqueiro, e seus aceclas. O ato é presenciado, de longe, por Amir, que não tem coragem de intervir, e cuja culpa por não ter defendido seu amigo, ou pelo menos tentado, o envenena, a ponto de forjar uma situação para que Hassan seja afastado de sua casa, e ele não tenha de conviver todos os dias com aquela lembrança. Para incriminá-lo, esconde um relógio de pulso valioso debaixo de seu colchão, dando à impressão de que ele pretendia cometer um roubo. Ao ser descoberto, Hassan opta por admitir o crime, em vez de acusar Amin, que ele, intimamente, sabia ser o culpado por aquilo.
Os anos se passam, e Amir cresce. Cresceu sentindo culpa pelo que fez na infância, com aquele que era seu melhor amigo. Vivendo nos EUA, recebe uma ligação para retornar ao Afeganistão, onde descobre que Hassan foi morto pela milícia talibã, e seu filho era prisioneiro e escravo sexual de um miliciano. Descobre, também, que Hassan era, na verdade, seu meio-irmão, filho da relação entre seu pai e a esposa de Ali. O remorso lhe toma conta, e ele tenta compensá-lo tirando o jovem Sohrab, filho de Hassan, da vida que levava, e adotando-o.
A história, com final emocionante, pode ser tomada de diversas formas, inclusive como uma metáfora entre a relação entre os EUA e o Afeganistão, sendo o primeiro personificado na figura de Amir, aquele que vê o amigo ser violentado, e prefere assistir a tudo ao invés de intervir. Eu, em minha visão mais voltada para os sentimentos envolvidos, prefiro ver a história resumida em uma única frase, que Hassan diz a Amir, e que marca todas as provas de amizade que ele lhe dá ao longo da história: "Por você, eu faria isso mil vezes".
"Por você, eu faria isso mil vezes" é o meu pretexto para pensar na fidelidade e na lealdade como formas de se conceber a relação entre as pessoas. Ser fiel é fechar os olhos e estar ao lado de alguém ou de algo, cegamente, indo, às vezes, contra os próprios sentimentos e valores. Ser leal a alguém é, antes de tudo, ser leal a si mesmo, aos próprios sentimentos, e à clareza na relação com o outro.
Para muitos, pensando assim, Hassan pode ser visto como aquele que tem fidelidade canina ao amigo Amir, não o deixando nem nos momentos em que ele mais o decepciona. Para mim, no entanto, a lealdade é a ideia que traduz o sentimento de Hassan por Amir. Ali, ele era leal ao profundo amor fraterno que sentia pelo amigo/irmão com quem crescera e compartilhara tantas coisas.
É difícil pensar, pra mim, nas relações de amizade sem lembrar no Hassan criado por Khaled Hosseini. "Por você, eu faria isso mil vezes". Que todos os sentimentos de companheirismo e cumplicidade entre as pessoas sejam resumidos na extrema lealdade, e traduzidos na frase que expressa a entrega e o braço sempre disposto a erguer o outro, assim como o fez o jovem "caçador de pipas".
Bom fim de ano!
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Fim de ano é isso aí
Não sei o porquê, mas essas festas de fim de ano me deixam assim... sabe? Mais melancólico, mais sensível, mais dado a emoções. Você pode tar dizendo: mas é assim com todo mundo! E eu diria que, em geral, as pessoas ficam mais sensíveis. Mas também é normal eu achar que meu sentimento é único. Porque é, ninguém sente igual a mim, nem eu igual a ninguém. Minha melancolia tem impressão digital própria. É estranho esse momento de renovação. Um misto de alegria pelo que virá, e saudade do que passou. Eu ainda tô muito na fase da saudade.
Quem me conhece, sabe que esse tipo de sentimento não me é incomum. Tenho melancolia de aniversário, de fim de ano, de dias sem datas especiais. Vai ver sou mesmo um melancólico crônico. É que as coisas acontecem, e minha reação é introspectiva. Eu tendo a agir pra dentro. A socar não meu fígado, mas minha alma. E a massagear também, que esse sentimento é, acima de tudo, contraditório.
Bom, pros que chegaram até esse parágrafo, quero dizer que o fim de ano chegou e traz comigo, nessa melancolia, um grande desejo de que esse ano fosse eterno. 2011 foi muito bacana. Um ano de transformações grandes. Um ano em que eu tô começando a conviver comigo mesmo de maneira melhor, e, principalmente, a conversar mais comigo mesmo, de maneira mais competente. Com minhas pequenas idiossincrasias. Tudo isso, aliado a um turbilhão de outras coisas, me fizeram crescer. E pode ser que eu tenha me tornado alguém um pouquinho melhor nos últimos 365 dias.
Aos amigos, que esse Natal atraia esse sentimento intimista, que é gostoso também. Faz a gente valorizar aquilo que a gente tem, não o que a gente perdeu. Pros inimigos, não digo nada. Creio que não os tenho. Pros grandes amigos, os melhores amigos, também não digo nada, agora. Toda hora é hora de dizer o que é preciso, e nesse não foi diferente. Mas, antes de tudo, sei que nos subentendemos, e é isso que importa: nosso silêncio grandiloquente e confortante.
Um abraço.
Quem me conhece, sabe que esse tipo de sentimento não me é incomum. Tenho melancolia de aniversário, de fim de ano, de dias sem datas especiais. Vai ver sou mesmo um melancólico crônico. É que as coisas acontecem, e minha reação é introspectiva. Eu tendo a agir pra dentro. A socar não meu fígado, mas minha alma. E a massagear também, que esse sentimento é, acima de tudo, contraditório.
Bom, pros que chegaram até esse parágrafo, quero dizer que o fim de ano chegou e traz comigo, nessa melancolia, um grande desejo de que esse ano fosse eterno. 2011 foi muito bacana. Um ano de transformações grandes. Um ano em que eu tô começando a conviver comigo mesmo de maneira melhor, e, principalmente, a conversar mais comigo mesmo, de maneira mais competente. Com minhas pequenas idiossincrasias. Tudo isso, aliado a um turbilhão de outras coisas, me fizeram crescer. E pode ser que eu tenha me tornado alguém um pouquinho melhor nos últimos 365 dias.
Aos amigos, que esse Natal atraia esse sentimento intimista, que é gostoso também. Faz a gente valorizar aquilo que a gente tem, não o que a gente perdeu. Pros inimigos, não digo nada. Creio que não os tenho. Pros grandes amigos, os melhores amigos, também não digo nada, agora. Toda hora é hora de dizer o que é preciso, e nesse não foi diferente. Mas, antes de tudo, sei que nos subentendemos, e é isso que importa: nosso silêncio grandiloquente e confortante.
Um abraço.
sábado, 3 de dezembro de 2011
Vai vivendo (ou sobre a ideia de felicidade)
Renato aprendeu desde cedo a não andar descalço, a usar a camisa combinando com a calça, e a escrever gramática e ortograficamente correto. Mas ninguém o ensinou a lidar com as pessoas. Parecia difícil entender que haviam cláusulas de convivência que regulavam a vida de todo mundo, inclusive a dele. Que o mundo não se resumia à sua aldeia, ou melhor, ao seu quarto, seus brinquedos, sua vidinha tranquila.
Renato morria de medo da companhia dos outros. As pessoas lhe causavam ansiedade, e ele sempre via aqueles que, porventura, aparecessem em sua casa, esporadicamente, ou pra passar uma temporada, como um estorvo - alguém que mexia com sua rotina. Seu mundo individualista e pequeno-burguês coincidia com sua vida de filho único de uma família de classe média-média.
Amigos vinham para brincar, nas férias ou no fim de semana, e passavam, no máximo, uma manhã ou uma tarde. Mais do que isso era mexer demais com sua rotina, sua vida regrada, os programas de TV que gostava de assistir.
Renato estava longe de ser um mimado chato, pidão, intragável. No máximo, era um menino anti-social, mas não externava nenhum defeito grave maior que isso. Era calado, quieto, aparentava inteligente, tirava boas notas no colégio. Tinha uma convivência amistosa com os colegas, professores, com os pais, tios, primos, avós, etc. Só não estreitava relações. Não tinha um "melhor amigo". No máximo, tinha colegas - essa era a relação mais próxima da amizade que ele praticava.
O maior medo de Renato era deixar de ser filho único. Não que ele não quisesse dividir seus pais, alguma coisa qualquer que sua família fosse lhe deixar... mas é que um irmão mudaria sua vida de forma tão definitiva que a ideia lhe causava pânico. E assim foi durante toda sua infância, embora o pai entendesse que sua solidão era anormal demais para os meninos de sua idade. Que seu egocentrismo, embora não o tornasse antipático perante as pessoas com quem convivia, fazia dele alguém que poderia ter problemas de relacionamento muito graves no futuro.
O caso é que Renato cresceu. Era um garoto de bom-senso, um menino educado, e a adolescência chegou, causando algumas transformações em seu modo de enxergar a si e ao mundo. Causa em todo mundo, mas nele foi um pouco mais além do interesse pelas meninas e das mudanças no corpo. Não, não deu exatamente trabalho aos pais. Jamais fugiu de casa, nunca experimentou álcool ou drogas. Jamais bateu boca com o pai ou a mãe. Hoje, olhando pra trás, os pais dizem que Renato foi um adolescente que não deu trabalho. De repente, foi a fase mais tranquila de sua vida (embora ele sempre tenha sido um menino tranquilo).
No seu íntimo, Renato vivia uma crise. A solidão que jamais o incomodara na infância se tornava um fardo na adolescência. Para ele, relacionar-se era difícil. De repente, passava-lhe a fazer falta o irmão que não teve. Não queria uma criança por perto - essa não era exatamente a ideia. Mas sentia falta de dividir com as pessoas as sensações novas, de conversar bobagem. No fundo, Renato cresceu sem se sentir à vontade perto de ninguém.
Pareceu a todos uma passagem serena a de Renato pela vida, da infância à jovem maturidade. Passou no vestibular bem classificado. Foi um bom aluno, talvez um dos melhores. Formou-se com louvor. Entrou na pós-graduação, arranjou um bom emprego... Mas a vida social de Renato andava a passos lentos. Só no fim da adolescência, e início da vida adulta, começou a fazer amizades mais sólidas. Só nessa época começou a tomar coragem para se aproximar das mulheres. Não que ele não sentia necessidades físicas, como todos os homens, mas era um tímido crônico.
A vida transformou Renato num adulto bem-sucedido, e relativamente feliz. As coisas com ele sempre aconteceram com uma velocidade mais reduzida que a maioria. Ele ainda precisa resolver alguns conflitos psicológicos, ainda precisa trabalhar certas carências, ainda precisa aprender certas coisas sobre a vida prática. Mas ele tem pessoas legais ao seu lado. No fundo, a forma como conduziu a vida trouxe-lhe a vantagem de ser um grande observador das pessoas, a aguçar sua sensibilidade, a escolher bem os amigos, a namorada, enfim. Vai vivendo.
Às vezes, a felicidade é efêmera. Para Renato foi, e continua sendo. Pra muita gente, ele pode parecer alguém infeliz, que queimou etapas da vida. Pra outros, um cara muito bacana, de coração enorme, mas meio melancólico, às vezes. Para ele... bom, ele não sabe muito bem. Talvez nunca saiba. Mas ele olha em volta, e aprendeu a valorizar coisas bem pequenas, que guarda só pra si, em um lugar reservado de sua alma. Aprendeu a externar felicidades simples, sóbrias. Renato é meio filósofo para os amigos, para a família, para muita gente que tem um carinho enorme por ele e, sem saber expressar muito bem em palavras, o entende, e gosta dele porque é assim.
E vai vivendo!
Renato morria de medo da companhia dos outros. As pessoas lhe causavam ansiedade, e ele sempre via aqueles que, porventura, aparecessem em sua casa, esporadicamente, ou pra passar uma temporada, como um estorvo - alguém que mexia com sua rotina. Seu mundo individualista e pequeno-burguês coincidia com sua vida de filho único de uma família de classe média-média.
Amigos vinham para brincar, nas férias ou no fim de semana, e passavam, no máximo, uma manhã ou uma tarde. Mais do que isso era mexer demais com sua rotina, sua vida regrada, os programas de TV que gostava de assistir.
Renato estava longe de ser um mimado chato, pidão, intragável. No máximo, era um menino anti-social, mas não externava nenhum defeito grave maior que isso. Era calado, quieto, aparentava inteligente, tirava boas notas no colégio. Tinha uma convivência amistosa com os colegas, professores, com os pais, tios, primos, avós, etc. Só não estreitava relações. Não tinha um "melhor amigo". No máximo, tinha colegas - essa era a relação mais próxima da amizade que ele praticava.
O maior medo de Renato era deixar de ser filho único. Não que ele não quisesse dividir seus pais, alguma coisa qualquer que sua família fosse lhe deixar... mas é que um irmão mudaria sua vida de forma tão definitiva que a ideia lhe causava pânico. E assim foi durante toda sua infância, embora o pai entendesse que sua solidão era anormal demais para os meninos de sua idade. Que seu egocentrismo, embora não o tornasse antipático perante as pessoas com quem convivia, fazia dele alguém que poderia ter problemas de relacionamento muito graves no futuro.
O caso é que Renato cresceu. Era um garoto de bom-senso, um menino educado, e a adolescência chegou, causando algumas transformações em seu modo de enxergar a si e ao mundo. Causa em todo mundo, mas nele foi um pouco mais além do interesse pelas meninas e das mudanças no corpo. Não, não deu exatamente trabalho aos pais. Jamais fugiu de casa, nunca experimentou álcool ou drogas. Jamais bateu boca com o pai ou a mãe. Hoje, olhando pra trás, os pais dizem que Renato foi um adolescente que não deu trabalho. De repente, foi a fase mais tranquila de sua vida (embora ele sempre tenha sido um menino tranquilo).
No seu íntimo, Renato vivia uma crise. A solidão que jamais o incomodara na infância se tornava um fardo na adolescência. Para ele, relacionar-se era difícil. De repente, passava-lhe a fazer falta o irmão que não teve. Não queria uma criança por perto - essa não era exatamente a ideia. Mas sentia falta de dividir com as pessoas as sensações novas, de conversar bobagem. No fundo, Renato cresceu sem se sentir à vontade perto de ninguém.
Pareceu a todos uma passagem serena a de Renato pela vida, da infância à jovem maturidade. Passou no vestibular bem classificado. Foi um bom aluno, talvez um dos melhores. Formou-se com louvor. Entrou na pós-graduação, arranjou um bom emprego... Mas a vida social de Renato andava a passos lentos. Só no fim da adolescência, e início da vida adulta, começou a fazer amizades mais sólidas. Só nessa época começou a tomar coragem para se aproximar das mulheres. Não que ele não sentia necessidades físicas, como todos os homens, mas era um tímido crônico.
A vida transformou Renato num adulto bem-sucedido, e relativamente feliz. As coisas com ele sempre aconteceram com uma velocidade mais reduzida que a maioria. Ele ainda precisa resolver alguns conflitos psicológicos, ainda precisa trabalhar certas carências, ainda precisa aprender certas coisas sobre a vida prática. Mas ele tem pessoas legais ao seu lado. No fundo, a forma como conduziu a vida trouxe-lhe a vantagem de ser um grande observador das pessoas, a aguçar sua sensibilidade, a escolher bem os amigos, a namorada, enfim. Vai vivendo.
Às vezes, a felicidade é efêmera. Para Renato foi, e continua sendo. Pra muita gente, ele pode parecer alguém infeliz, que queimou etapas da vida. Pra outros, um cara muito bacana, de coração enorme, mas meio melancólico, às vezes. Para ele... bom, ele não sabe muito bem. Talvez nunca saiba. Mas ele olha em volta, e aprendeu a valorizar coisas bem pequenas, que guarda só pra si, em um lugar reservado de sua alma. Aprendeu a externar felicidades simples, sóbrias. Renato é meio filósofo para os amigos, para a família, para muita gente que tem um carinho enorme por ele e, sem saber expressar muito bem em palavras, o entende, e gosta dele porque é assim.
E vai vivendo!
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