sábado, 7 de agosto de 2010

Tim Burton - Onde a esquisitice ganha sentido


Recentemente, visitei a locadora de DVD (Sim, eu vou à locadora. Como rapaz politicamente correto, não saio por aí comprando DVD pirata, bando de corruptos), com o intuito de alugar o mais novo blockbustter Alice no País das Maravilhas. Não apenas para relembrar o clássico da Disney, e a história apaixonantemente surreal de Lewis Carrol, mas para constatar que ninguém dirigiria melhor uma película com tais características quanto Tim Burton.

Tido por muitos como estranho, sombrio e sociopata, Burton é caracterizado, como todos sabem, por suas temáticas soturnas. Seus filmes possuem um tom noir, mas não o daqueles grandes suspenses do passado (não, não é Hitchcock, tampouco Polanski). O horror de Burton é aliado a um tom cômico, que lhe dá leveza, quase uma inocência infantil. Os olhares de seus personagens variam entre o piedoso e o psicótico, fazendo o público enxergar ali suas próprias neuras.

A marca registrada do diretor fica clara em alguns filmes típicos. Seja em roteiros originais, seja em adaptações (sempre o chamam quando querem exatamente este tom para uma obra já existente), Burton consegue imprimir ao personagem retratado - ideal ou real - um ar de quem dialoga, na dúvidas de sua existência efêmera, com os problemas do interlocutor.


A obra de Burton é recheada de casos assim. Seu personagem mais famoso é Edward, o estranho e infeliz produto de uma invenção com pedaços humanos. Sendo um arquétipo de Frankstein, Edward tem como característica mais marcante - fora suas costuras no rosto e no corpo - as mãos de tesoura, o "aleijão" que o afasta dos demais humanos. É ele, também, uma metalinguagem de Pinóquio, o boneco que queria ser menino de verdade. Edward, o mãos-de-tesoura, queria apenas uma vida normal, amigos, namorada, família, vida. Mas as dificuldades de convivência o tornam um anti-social amargurado, irrustido como seu criador (o diretor Burton, não o inventor maluco).

Na continuação de sua obra temos as adaptações. Os grandes personagens que ganharam vida e características novas nas mãos indecifráveis do cineasta. Antes de Alice, o cavaleiro das trevas Batman também foi uma de suas cobaias. Em Batman, de 1989, e Batman Returns, de 1992, porém, não era o Homem-Morcego o alvo das discussões existenciais do diretor. Eram, estes sim, os vilões da obra. O Coringa, vivido por Jack Nicholson, traz em seus problemas mentais a essência do palhaço infeliz criado pelo diretor. O Pinguim, encarnado por Danny DeVito três anos depois, é uma recriação do mito da não-aceitação pela diferença e estranheza.


Posteriormente, Burton viria a ser, também, o responsável pelo remake de A Fantástica Fábrica de Chocolates, baseado no livro homônimo de Roald Dahl. Nesta versão, o grande protagonista não é Charlie, o garoto pobre que ganha um cartão para visitar a fábrica das maravilhas, e sim Willie Wonka, seu estranho e anti-social proprietário. As perturbações de Wonka, também assolado pela não-aceitação perante a sociedade, se figuraram na interpretação de Johnny Depp, recorrente no "sentimental casting" do diretor. A história infantil ganha contornos psicológicos densos ao analisarmos o homem que construiu um império mágico para suprir o vazio de família e amigos.

Contar histórias não é apenas escrevê-las. Diretores, como sabemos, têm profunda participação em seus contornos, com a escolha da fotografia, do elenco, das cores, da trilha sonora. Burton, sem dúvida, é um dos mais prolíficos e marcantes de Hollywood. Cabe a nós, cinéfilos analíticos, buscarmos em sua obra os elementos de sua personalidade controversa, de seu "eu" investido de caráter relacional manchado. Cabe encontrar ali sua busca por aceitação, família e amigos.

5 comentários:

  1. Eu assisti essa versão no cinema 3D (risos)
    Eu achei bem estruturada, no entanto muito densa e "barra-pesada" pra criança, sobretudo com aquele medonho monstro que Alice luta no final.
    Mas o cinema tem isso. Colocar sua visão sobre histórias clássicas, agradando e desagradando a gosto do cliente.
    Parabéns pelo texto :)

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  2. Eu também assisti a versão em 3D. E confesso que não foi uma experiência lá muito agradável. Novidade, né? Muita criança e adulto (!!!) deslumbrado com os ''oclinhos'' berrando à cada cena ou tirando fotos (isso!) com flash (!!!) dentro do cinema. Um horror, enfim. Fui assistir mesmo, entendendo e analisando o filme, há uns três meses atrás. Sou muito fã do Tim Burton. E lamento que você não tenha citado na sua breve listinha, o expecional A Noiva Cadáver, pra mim, a coisa mais genial em filmes de animação nos últimos anos, junto com Planeta 51 e Bee Movie. Mas voltando à Alice... acho que o grande problema desta versão não é nem o tom soturno característico do diretor - que está até bem atenuado, podemos classificar Alice como um filme até meio levinho, se pararmos pra compará-lo com outros longas do Tim - mas é justamente na quase total inexpressividade da atriz escolhida para o papel-título. A garota se esforça, mas só consegue ser apática na maior parte do tempo. E, principalmente, chega a comprometer em situações que exigem maior entrega e força dramatúrgica. Como a sequência com o dragão/monstro/mutantedoTiagoSantiago/whatever que ela tem que enfrentar, e o final quando desfaz o noivado com o rapaz afetado. O filme é, por excelência, de Johnny Deep. E embora eu não vá lá muito com a cara dele, devo admitir que faz o seu arroz com feijão com extrema competência. Não dá para acusá-lo de afetação ou exagero, porque isso é a tônica do personagem. Mas sem dúvida nenhuma, a minha personagem predileta é a divina e maravilhosa Rainha Vermelha, afinal, ''Cortem suas cabeçaaaaaas!". Lindtcha!

    Recomendo a versão fake desse filme, disponível no YouTube, usando Lady Gaga. Chama-se Gaga in the Wonderland. Hilário!

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  3. Um primeiro olhar e gostei daqui. Convido vc a me visitar no meu espaço:
    www.espacointertextual.blogspot.com

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  4. Voltei pra dizer que acabo de assistir ao filme "Alice no país das maravilhas" e que aprovo a versão.

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  5. Incrível como a obra de Burton gira sempre em torno do mesmo eixo e não deixa de ser original. A cada história, o diretor encontra novos caminhos, sem jamais perder as suas características enquanto artista. Impossível assistir aos primeiros minutos de algum de seus filmes e não reconhecer a mão de Burton, e hoje em dia, isso não é muito comum.

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