domingo, 3 de junho de 2012
Hoje é dia de ser subjetivo
Ando me tornando uma espécie de vítima da saudade. Uma espécie de saudade crônica, essa que me persegue sempre, esse medo de perder as pessoas que eu tenho por perto se passar um, dois dias sem falar com elas. O distanciamento me causa um grande medo, oriundo, talvez, de minha introspecção natural. Talvez o tolhimento de algumas atividades que me direcionam para fora, para perto das pessoas, me fez crescer isso. Mas não é só isso. Eu não sei explicar.
Hoje é dia de ser subjetivo, e também de ser breve.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
O médico e a trapezista
Para ler ao som de “Beatriz”, de Chico Buarque.
Danças, piruetas e tanta gente mascarada. Parece distante, parece perdida, parece fazer parte de outro mundo. Você está lá, voando, e eu aqui, comendo pipoca, e ainda nem tirei a roupa com a qual saí da faculdade. Você deve ter passado o dia voando, e eu passei o dia vendo um cadáver na aula de anatomia. Você está maquiada, eu estou com os cabelos desgrenhados e os óculos sujos. Sua roupa é tão fina, tão colorida, que seu corpo parece se mostrar pra mim, só pra mim. Eu não sei piscar, desaprendi a tirar os olhos de você. Eu desaprendi a aprender. Que estranho, né?
Mais estranho é que pra mim, você vai estar ali, sempre voando, sempre saltando de um trampolim para o outro, eternamente. O que você faz quando sai do picadeiro? O que você pensa no seu camarim? Que mundo é o seu, hein? Que amores, que dores, que prazeres te ocorrem, te afetam? Será que você chora? Será que uma lágrima perpassa essa maquiagem, manchando o negro em torno dos seus olhos? Que nome você tem?
Outro dia, eu pensei em te seguir. Em ir junto com você até seu outro mundo, em experimentar, nem que fosse por um segundo, fazer parte dele. Eu não sou ninguém, eu não tenho nada, eu sou um garoto magricela num jaleco branco, e você... você eu não sei. Você é tudo aquilo que eu não sou, é tudo aquilo que me fascina. Você e sua roupa transparente, seus olhos negros, fundos, que me dizem tanto. Você é essa pele branca, é esse rosto encoberto por uma maquiagem que foi, um dia, nem que seja por um segundo, manchada por uma lágrima que correu, por alguém que te fez sofrer.
E se, um dia, você despencar do céu? E se os pagantes exigirem bis? E se ali termina a sua vida divina, e se começa a minha tragicomédia? E se, ali, eu descobri que você era uma boneca eletrônica, programada pra saltar de um trapézio a outro, dia após dia? Quem é você, afinal? Que nome tem, o que faz, tem namorado? Eu pensei em você, e pensei em me transportar para esse labirinto desconhecido e desconcertante da sua vida, sem medo de me engendrar por Céu, Inferno ou Purgatório.
Você não tem nome, mas eu te chamo de Beatriz...
segunda-feira, 14 de maio de 2012
Das coisas que eu (não) entendo
Parece que o tempo vai passando, e a gente vai ficando cada dia mais burro. Nossas ideias começam a caducar. Outro dia mesmo, eu me via pensando em certas coisas que permeiam nosso tempo, e que, amanhã, serão ultrapassadas. Me imaginei como aqueles velhos ranzinzas e saudosistas, cheio de reminiscências, dizendo que bom/correto/gostoso/moral/benfeito era no meu tempo. Essa sensação deve ter qualquer coisa a ver com as entradas, que começam a aparecer com mais promiscuidade, e com os cabelos brancos, que estão (ainda timidamente, mas estão) começando a se espalhar pelo meu couro cabeludo. E o pior é que a velhice está vindo antes de algumas coisas que a juventude proporciona...
Não quero aqui me lamentar por nada, porque não há motivos. Mas quero refletir sobre o tempo. Esse tempo do qual faço parte, ao qual sou sujeito, e aos afetos. Tem momentos em que certas coisas me afetam mais fortemente, e não tem grandes explicações. São momentos em que a vida me parece um banco de praça, num monte de onde se enxerga o pôr-do-sol. É nesses dias que me sinto o personagem da música do Capital, que vê nos reflexos do outro mais tranquilidade, menos nóias do que nos seus: "Não sei onde, quando ou porquê um dia eu percebi, a vida é mais doce pra você, tem um gosto que eu nunca conheci...". Pois é, "o tempo corre e eu preciso te alcançar...".
Enquanto isso, eu olho pra trás, e vejo que o tempo está passando numa velocidade impressionante. As coisas vêm se processando num ritmo de foguete, e eu não sei se eu mesmo estou conseguindo me acompanhar. É complicado. Se, num momento, você se enxerga numa praça provinciana, no outro, você está no meio do trânsito de uma capital caótica, e, em seguida, num quadro de Salvador Dalí, ou num filme de Jean-Luc Godard. Não sei ao certo. Mas tudo isso metaforicamente, claro.
Enfim, pra não perder o fio da meada: o tempo... Ele parece mais bonito na letra de Caetano, sendo "um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho", a quem posso fazer um pedido. Ele é inventivo, parece contínuo, e aparece ainda mais vivo no som do meu estribilho. O tempo, um dos deuses mais lindos. O deus do caos, talvez. O deus da estabilidade, provavelmente. Essa faceta divina de nossas próprias vidas, que nos atravessa, indelével, que nos afeta de forma tão direta e objetiva.
Talvez minhas ideias estejam, mesmo, começando a caducar. É nesses momentos que, de repente, parece que há um fosso entre você e os outros. Desse fosso, é dele que eu tenho medo. Me causa pânico a distância, a possibilidade de eu estar me tornando um dinossauro caduco, repulsivo, o lado negativo de um ímã. Me causa pânico, com 22 anos, prestes a completar 23, eu me ver como um velho chato, ranzinza e saudosista, cheio de ideias caducas e um moralismo barato. Ouvindo meu bop, lendo textos marginais, vendo flmes em super-8... ou, talvez, ouvindo música pop, lendo HQs e vendo um filme de aventura no Telecine, tanto faz. O tempo me atravessa.
domingo, 15 de abril de 2012
Transando (com) as palavras - e olhem o duplo sentido
A fala me assusta. Os signos me fascinam. Talvez seja essa a minha característica enquanto falador, fazedor e escritor. É isso. É mais fácil pra mim escrever do que falar. É mais fácil ser um enunciador, um codicista, um malandro das palavras. É mais difícil ser um fazedor de traquinagens no mundo real.
Expliquemos e exemplifiquemos melhor. Luís Fernando Verissimo é assim. Nos textos, é ferino, é mordaz, é loucamente cotidiano, é um penetrador promíscuo na vida real. Na vida real é um tímido, vejam só.
Parece uma espécie de carma, uma espécie de sina, uma espécie de vício. Eu sou como sou: promíscuo escrevendo, um copulador com as palavras, com os termos, um inventor de significados. Fazendo e falando, eu sou certinho, sou padrão. Quem sou eu, na verdade? Acho que sou os dois. Sou essa química perversa.
Ou não tão perversa assim. Falar, fazer e escrever são três estatutos de realidade. A enunciação oral inventa, a enunciação escrita inventa, o ato físico inventa. As três invenções são reais. Eu escrevo como quem faz, mas não falo como quem escreve. Tampouco faço como quem escreve.
Melhor continuar sendo esse gigolô da linguagem, esse filho do puta-português, dos puta-signos, da refazenda que é o papel, que são esses sinais malcriados. É bom ser travesso com as palavras, né, Torquato Neto? Né, Faustino? Né, Durvalino? Né, Gullar? Né, Jomard?
Vamos brincar escrevendo, escrever fazendo, escrevivendo. Azulcriando realidades no céu vermelho da linguagem. Vamos poetar e cuspir no mundo. Que isso, Certeau, também é arte de fazer.
Expliquemos e exemplifiquemos melhor. Luís Fernando Verissimo é assim. Nos textos, é ferino, é mordaz, é loucamente cotidiano, é um penetrador promíscuo na vida real. Na vida real é um tímido, vejam só.
Parece uma espécie de carma, uma espécie de sina, uma espécie de vício. Eu sou como sou: promíscuo escrevendo, um copulador com as palavras, com os termos, um inventor de significados. Fazendo e falando, eu sou certinho, sou padrão. Quem sou eu, na verdade? Acho que sou os dois. Sou essa química perversa.
Ou não tão perversa assim. Falar, fazer e escrever são três estatutos de realidade. A enunciação oral inventa, a enunciação escrita inventa, o ato físico inventa. As três invenções são reais. Eu escrevo como quem faz, mas não falo como quem escreve. Tampouco faço como quem escreve.
Melhor continuar sendo esse gigolô da linguagem, esse filho do puta-português, dos puta-signos, da refazenda que é o papel, que são esses sinais malcriados. É bom ser travesso com as palavras, né, Torquato Neto? Né, Faustino? Né, Durvalino? Né, Gullar? Né, Jomard?
Vamos brincar escrevendo, escrever fazendo, escrevivendo. Azulcriando realidades no céu vermelho da linguagem. Vamos poetar e cuspir no mundo. Que isso, Certeau, também é arte de fazer.
quinta-feira, 5 de abril de 2012
Sobre memória e esquecimento: considerações de historiador
Paulo Ricardo Muniz Silva
Licenciado em História pela UESPI
Mestrando em História do Brasil na UFPI

Certa vez, eu lembrava, com alguma dificuldade de detalhes, de uma colega a me contar sobre o resultado de uma pesquisa realizada na Itália, de forma quase que inacreditável. Ela afirmava que uma parcela considerável dos italianos (não consigo precisar quantos) jamais ouviu falar em Benito Mussolini. Lembro-me que compartilhei do mesmo sentimento de incredulidade, surpresa, dentre outras sensações. Eu me perguntava: ora, como os próprios italianos não lembram de Mussolini, o general-ditador, um dos ícones do fascismo e um dos (agora enchendo muito a bola dele) protagonistas do século XX? Não podia acreditar, não podia aceitar.
Mas, absorto em tudo isso, percebi que estava esquecendo de considerar algumas coisas. Primeiro, de lembrar qual é o meu lugar. Não o de italiano, ou mesmo de participante da supracitada guerra, mas de um estudioso da área, um historiador. Segundo, e acho até que o ponto mais importante, do constante dever de não julgar. Afinal, não somos juízes de nada nem de ninguém. Somos, isso sim, questionadores. Temos a capacidade e o dever de lançar problematizações – atividade tão cara no métier do historiador. E tudo isso me remete à seguinte questão: Por que eles não lembram de Mussolini? Será que eles o esqueceram? Se for isso, existe alguma razão para que acontecesse?
Vários historiadores debruçaram-se, em suas pesquisas, sobre a discussão que envolve a relação tênue existente entre História e Memória. Jacy Seixas, em artigo intitulado Percursos de memória em terras de História, nos diz, em suas primeiras linhas, que “vivemos o império da memória, e de seu correlato, o esquecimento”.
Entretanto, foi outro artigo que me fez refletir sobre a questão da lembrança/esquecimento dos italianos e a tal conversa com a tal amiga. Em uma coletânea de textos sobre a Ditadura Civil-Militar, um artigo de um historiador especialista no regime nos conta que são evidentes as dificuldades que a sociedade brasileira tem em recordar esse período. Muitas perguntas podem ser feitas para se entender o motivo dessas dificuldades. Seria difícil reconhecer a participação da sociedade civil no Golpe de 64? Ou seria doloroso rememorar as dificuldades econômicas, sociais, políticas e culturais do período? A dor das prisões e das torturas, a saudade dos que partiram e não mais voltaram... Todos seriam motivos para essa dificuldade de lembrar, e, consequentemente, de uma vontade de esquecer, se é que podemos falar nisso?
Daniel Aarão Reis, autor do artigo, afirma, em seu texto, que “sempre quando os povos transitam de uma fase a outra da história, e quando a outra rejeita taxativamente a anterior, há problemas de memória, resolvidos por reconstruções mais ou menos elaboradas, quando não pelo puro e simples esquecimento”. Ao dar o exemplo dos alemães em relação a Hitler, e dos russos em relação a Stálin, me peguei relembrando os tais italianos da conversa com minha amiga, e pude, enfim, reavaliar meus conceitos e preconceitos para com as atitudes dos mesmos. Já dizia o poeta, que “o esforço pra lembrar é vontade de esquecer”. Problematizar, problematizar, problematizar... não somos juízes.
Licenciado em História pela UESPI
Mestrando em História do Brasil na UFPI

Certa vez, eu lembrava, com alguma dificuldade de detalhes, de uma colega a me contar sobre o resultado de uma pesquisa realizada na Itália, de forma quase que inacreditável. Ela afirmava que uma parcela considerável dos italianos (não consigo precisar quantos) jamais ouviu falar em Benito Mussolini. Lembro-me que compartilhei do mesmo sentimento de incredulidade, surpresa, dentre outras sensações. Eu me perguntava: ora, como os próprios italianos não lembram de Mussolini, o general-ditador, um dos ícones do fascismo e um dos (agora enchendo muito a bola dele) protagonistas do século XX? Não podia acreditar, não podia aceitar.
Mas, absorto em tudo isso, percebi que estava esquecendo de considerar algumas coisas. Primeiro, de lembrar qual é o meu lugar. Não o de italiano, ou mesmo de participante da supracitada guerra, mas de um estudioso da área, um historiador. Segundo, e acho até que o ponto mais importante, do constante dever de não julgar. Afinal, não somos juízes de nada nem de ninguém. Somos, isso sim, questionadores. Temos a capacidade e o dever de lançar problematizações – atividade tão cara no métier do historiador. E tudo isso me remete à seguinte questão: Por que eles não lembram de Mussolini? Será que eles o esqueceram? Se for isso, existe alguma razão para que acontecesse?
Vários historiadores debruçaram-se, em suas pesquisas, sobre a discussão que envolve a relação tênue existente entre História e Memória. Jacy Seixas, em artigo intitulado Percursos de memória em terras de História, nos diz, em suas primeiras linhas, que “vivemos o império da memória, e de seu correlato, o esquecimento”.
Entretanto, foi outro artigo que me fez refletir sobre a questão da lembrança/esquecimento dos italianos e a tal conversa com a tal amiga. Em uma coletânea de textos sobre a Ditadura Civil-Militar, um artigo de um historiador especialista no regime nos conta que são evidentes as dificuldades que a sociedade brasileira tem em recordar esse período. Muitas perguntas podem ser feitas para se entender o motivo dessas dificuldades. Seria difícil reconhecer a participação da sociedade civil no Golpe de 64? Ou seria doloroso rememorar as dificuldades econômicas, sociais, políticas e culturais do período? A dor das prisões e das torturas, a saudade dos que partiram e não mais voltaram... Todos seriam motivos para essa dificuldade de lembrar, e, consequentemente, de uma vontade de esquecer, se é que podemos falar nisso?
Daniel Aarão Reis, autor do artigo, afirma, em seu texto, que “sempre quando os povos transitam de uma fase a outra da história, e quando a outra rejeita taxativamente a anterior, há problemas de memória, resolvidos por reconstruções mais ou menos elaboradas, quando não pelo puro e simples esquecimento”. Ao dar o exemplo dos alemães em relação a Hitler, e dos russos em relação a Stálin, me peguei relembrando os tais italianos da conversa com minha amiga, e pude, enfim, reavaliar meus conceitos e preconceitos para com as atitudes dos mesmos. Já dizia o poeta, que “o esforço pra lembrar é vontade de esquecer”. Problematizar, problematizar, problematizar... não somos juízes.
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